quarta-feira, junho 16, 2010

16 de Junho - Happy Birthday, Mr Zink!



As Faces da Fé
Fala-se muito das novas redes sociais na Internet. Há quem ache um perigo. Tinha de ser. Para os elitistas elípticos, tudo o que é novo é um perigo. Eu por acaso penso o contrário. Até porque, tanto quanto sei, o abuso, o despudor, o egoísmo, a sacanice, não são invenções recentes. Vem-me logo à cabeça a imagem de um cordeiro a olhar curioso para um computador, até que chega o lobo e, pondo-lhe a pata no ombro, previne: 'cuidado, aquele bicho quer comer-nos!' Mais engraçado só um subscritor so Compromisso Portugal a dizer que temos de ser uns para os outros e aceitar a congelação salarial e fazer sacrifícios pela Pátria. O sucesso das novas redes sociais assenta em algo muito simples: são um oásis no deserto, dado que a sociedade parece cada vez mais fechada e tomada de assalto por sociopatas. É certo que graças ao Facebook estabelecemos laços com mais gente do que seria razoável, mas nos tempos que correm... De resto, para além dos novos 'amigos', há sempre a hipótese de reencontrar gente que não víamos há vinte anos e anda espalhada pelo Canadá, pelas Franças. Ou, mais longe ainda, Coimbra.
Ná, o desconhecido não é o inimigo. Eu sei-o, por issso achei pouca graça quando em 2009 'desamigar' foi considerada uma das palavras do ano. Obviamente que os amigos do Facebook não são amigos-a-sério. Mas são-no em potência. São-no de certo modo, e no certo modo é que está o ganho. Trata-se simplesmente de gente com quem trocar dois dedos de conversa na bicha para o pão. E que não nos importaríamos de ter por vizinhos numa aldeia onde os sociopatas não entrassem. Gente que em princípio não nos quer mal, o que é hoje uma mais-valia. Em tempos de desconfiança nos céus (os CEOs da EP, da EDP, da PT, da Portugal SARL, etc.), o refúgio na Fecebook pode mesmo ser uma expressão de fé, naquilo em que nunca podemos perder a fé: as pessoas. Eu sei que o circo sem rede tem mais piada, sobretudo para quem gosta de ver a morte do artista. Mas para quem apenas quer viver e deixar viver, a dona rede é muito bem-vinda.
Rui Zink, Metro, 19 de Abril de 2010

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domingo, outubro 18, 2009

22 de Outubro - Do Baú das Crónicas

Arroz Doce

(Honkytonkyxungadandy Tale)


Não gosto do Bairro Alto à noite. Não frequento o Frágil, nem os Três Pastorinhos, nem a Ocarina. Quando muito dou uma saltada aos bem mais proletários B'Artis e Gráfico's; quando tem que ser, quando a saudade de velhos amigos começa a apertar, quando se fazem planos para uma nova revista, ou uma nova fita, ou uma nova revolução. Revista, fita, revolução que nunca se levantam daquelas mesas. Que nunca passam do primeiro esboço e, afogadas pelo álcool, não chegam sequer ao editorial, à premissa dramática, à tomada da RTP. Ir a estes sítios do Bairro Alto, à noite, é também uma forma de cansaço. Amargo como o absinto, denso e escorregadio como o fumo de centenas de SGs.

De dia é diferente. No Bairro Alto há um saber antigo, um outro fado e uma outra luz. É lá que existe um jornal que abandonei há muito tempo, um Conservatório em que se afundam as minhas últimas pretensões académicas, uma casa que faz bolos comunitários à maneira da Primeira República. É lá que estão as tascas que eu amo: numa delas está sempre uma mulher muito gorda em frente de um tapâruére com muito arroz e alguns carapaus; noutra estão sempre uns velhos debruçados sobre tarôts mágicos e lambidos; em outra ainda algumas putas sorvem Trinaranjus por palhinhas cor de púrpura, como o bâton, como o segredo. E nada disto é xunga. Xunga é o resto.

E há o Arroz Doce. De todas as tavernas é a minha preferida. Porque tem o descaramento de abrir algumas horas antes dos bares de gente decente, de atafulhar o estômago dessa gente com líquidos que custam o que custa a chuva, de reservar o direito de admissão (está lá, está escrito!) e admitir, sem reservas, a permanência de cadastrados e vadios, chulos e andebolistas, punks e técnicos de informática, no estabelecimento. É a minha preferida porque deita, clandestinamente e à sucapa, a língua de fora ao Frágil, ali, mesmo em frente, mesmo nas suas barbas. Nas tardes dos dias de semana a porta do Frágil está sempre escancarada, deixando ver um bocado de cortina surrada e um espelho oblíquo; muitas grades de Carlesberg espojam-se, a seu lado, no passeio; da janela do primeiro andar pingam collants, cuecas e ceroulas. O Frágil mostra-se, expõe-se, despe-se. É quase obsceno.

O recato, esse, mora do lado de lá da rua. Quem passar ali pela primeira vez não dá com o Arroz Doce, não pode imaginar o que existe do outro lado das paredes azuis. Do exterior não se ouve um som, não se vislumbra uma silhueta, não se imaginam os beijos e os risos. Ou a sua falta. Lá dentro há poucas mesas, uma juke-box quase estoirada, uma máquina de preservativos vinda dos anos 50. Há um retrato brejeiro do Segismundo Freud coroado com uma mulher nua e a legenda "What's in a Man's Mind". E uma velha fotografia habitada por pessoas agora conhecidas; aqui mais novas, a vestir pior, a sorrir descansadamente para o fotógrafo. Uma delas já morreu, de automóvel. Outra parece que foi para Bruxelas, ou Estrasburgo ou outro sítio qualquer. Uma terceira anda a escrever cada vez pior. É dos pós modernos.

No Arroz doce só há café de saco. E poucas canções na juke-box. A franquista 'Viva España', as tretas do Marco Paulo e os gargarejos do Freddy Mercury são as mais procuradas. Mas, à tarde, também há quem escolha canções de Amália e Leonard Cohen esfolando as mãos à cata da moeda marota que não marcou o código à primeira. Nunca marca. Os números mágicos parece que são o C5, C6, F1 e F2. Mas não tenho a certeza. De certeza, sei que anda por lá uma bebida de nome ordinário e com sabor a lumpen e a lúpulo. Chama-se Pontapé na C... e é feita à base de cerveja preta e de outros aditivos vindos da Lisnave. É muito boa e a mais concorrida. Hips.

Uma vez deu na televisão o Dínamo de Kiev-Benfica. O Arroz Doce estava cheio às seis horas. É raro. Eram as meias-finais. Um amigo meu que é maluco, e benfiquista dos oito costados ainda por cima, passou o tempo a torcer ruidosamente pelos soviéticos. Só para chatear. Durante a primeira parte fomos metralhados continuamente com olhares homicidas. No intervalo os lampiões esforçaram-se por acertar com beatas acesas e cascas de tremoços na nossa cerveja. Na segunda metade do jogo as coisas acalmaram: o Benfica estava a ganhar e só nos apercebemos de algumas naifas marotas que espreitavam dos bolsos das calças. O pior foi depois, quando o meu amigo disse que até o Curraleira F.C. conseguia jogar melhor que o Benfica, cujos jogadores andavam todos doentes do pékexuta. Tive que o salvar do linchamento iminente jurando por N. Sra. dos Aflitos que ele era filho do cônsul da URSS em Lisboa. Discuti com ele, admoestei-o violentamente, disse-lhe, aos berros, 'zdrástvuidie', 'pajólsta', 'dasvidânha' e todas as palavras russas que me vieram à cabeça. Os convivas pareceram ficar convencidos. Um deles chegou mesmo a dizer que tinha muito prazer em conhecer-nos, enquanto nos media o cadáver de alto a baixo. Saímos dali a assobiar a Internacional e o hino da CBS, perdão, do Glorioso.

Só voltei ao Arroz Doce muitos meses depois; cheio de saudades e vergonha. E de barba crescida. Tive vontade de oferecer um ramo de rosas à dona. Mas ela não ia entender. Ainda por cima parece que os rapazes novos chamam agora Estrela Azul (ou o que raio é) à taverna. Não faz mal. Nada mudou. E nada será como dantes. Porque o Arroz Doce não é xunga. Xunga é os outros.


António Pires


Nota do colectivo do 'Blitz': O nosso colega A.P., coitado, anda a ler Sartre, Mao, Baptista-Bastos, Martin Amis e 'O Independente'. Tudo ao mesmo tempo e por atacado. Tinha que se ressentir. Ainda por cima é do Barreiro. Desculpem-no lá, sim?


Blitz, 7 de Fevereiro de 1989

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terça-feira, março 10, 2009

10 de Março - Do Baú das Crónicas



Porque Sim

Fazer da cal o bilhete de identidade. Comer o primeiro u de Augusto. Às Marias chamar Bias. Petiscar ao fim do dia. Acreditar em Deus e no Partido Comunista. São coisas dos alentejanos.
Explicar Deus como 'alguém que manda nisto tudo'. Casar pela Igreja. Baptizar os filhos. Ser indiferente à missa. Não faltar à procissão. Desprezar a confissão. Chamar magana à morte. Dizer dos familiares que lhe morreram: 'o meu pai que Deus tem' ou 'a minha Joaquina que Deus tem'. Tirar o chapéu diante do cemitério. Crer em virtuosos (bruxos). Temer as trovoadas como os gauleses do Astérix. Benzer o pão antes de entrar no forno. Não derramar azeite. São coisas dos alentejanos.
Estar apaixonado quando está triste. 'Andar atrás de' quando está apaixonado. Chamar boda ao casamento e ao copo-d'água função. Anteceder os nomes dos filhos do pronome possessivo meu ou minha: o meu João, a minha Ana. Da mulher dizer apenas 'a minha', ignorando-lhe o nome. Não ter trambelho para os trabalhos domésticos. Enforcar-se quando se vê viúvo. São coisas doa alentejanos.
Ver cair a geada. Chamar charoco ao frio e busaranho ao vento gelado. Dizer que está aspereza quando há temporal. Ao sol chamar 'o astro' como se fosse o único no céu. Ao calor chamar calma. Viver com o Suão. Chamar às planuras descampados. Cerros aos outeiros. à floresta arvoredo.
Olhar o horizonte e saber ter vagar. Dizer: 'Estou à espera de me ir embora.' Declarar com solenidade: devagar que tenho pressa. Abalar no comboio da Cuba. A Lisboa chamar aldeia grande. Ter parentes na Brandoa. São coisas dos alentejanos.
Estar de roda do lume. Sentar no chão para conversar. Parar no largo ao olhinho do sol. Ter sempre a navalhinha petisqueira no bolso das calças. Condutar o pão, o vinho e a vida. Beber só em companhia. Cantar quando os outros também cantam. À seca chamar desgraça. Querer a barragem de Alqueva. São coisas dos alentejanos.
Porque sim.

Pedro Ferro, Público, 17 de Setembro de 1995

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terça-feira, março 03, 2009

3 de Março - Do Baú das Crónicas

in horta das vespas

A Aventura da Estrada

A estrada portuguesa é um lugar muito estranho. Quando os peritos da Comunidade cá vierem para uniformizar os nossos veículos é provável que deixem de acreditar, boquiabertos à beira da estrada, de lápis tremelicante na mão, no sonho europeu. São inclassificáveis. São insectos raros. Tropicais. Exóticos. Nada europeus. Se calhar começaram por ser europeus. Têm nomes europeus como Sachs e Zundapp. Mas, como tudo em Portugal, acabam por ser portugueses. E acabar é mesmo a palavra certa.
Como pode estar a Europa preparada, por exemplo, para aceitar no seu seio sofisticado aquelas motorizadas cobertas, metidas a minicarripanas, que zunem como mosquitos lunáticos pelas nossas vias a uma velocidade máxima de 35 quilómetros por hora? Que perversa lógica, ou patética necessidade ou magalomania leva um povo inteiro a pegar numa reles motorizada e a querer transformá-la em nada menos que um camião?
Os portugueses condizem estas viaturas dum modo furioso, todos dobrados por cima do 'guiador', com o nariz encostado à campainha, como se estivessem ressabiados, como se se quisessem vingar do facto de não terem um veículo mais decente. Como estas carripetas transportam cargas ridiculamente pequenas - uma bilha de gás ou duas grades de cerveja é o limite - os proprietários são obrigados a trabalhar seis vezes mais do que as outras pessoas. Devem ser quem mais trabalha por essa Europa fora, estes homens pequenos, de casaco de malha roxo e capacete de tijela, agachados de braço e de perna, acelerador torcido até doerem os pulsos, enervando-se cada vez que lhes parece uma subida pela frente, sabendo que a máquina pode não dar para tanto. E zangam-se quando se olha para eles. Não gostam de ser vistos.
Qual é o sonho destes sofredores? Comprar uma Toyota Hi-Ace. É a obsessão das classes trabalhadoras deste país. Adoram a elevação absurda do assento. Sentem que 'presidem' ao trânsito. São senhores. Os ligeiros, Porsches e Ferraris, rastejam-lhes debaixo dos narizes. Passaram a vida numa carripeta, a dez centímetros do chão, com as abas do capacete a baterem-lhes à volta das orelhas ensurdecidas (porque é que os trabalhadores nunca apertam os capacetes?). Com cada percurso, com cada grade de vasilhame ou quilo de jornais velhos que conseguem entregar, pensam 'só faltam seiscentos e trinta contos...'. Até ao dia em que ascendem a um Ford Transit ou a uma Bedford. E no dia em que para lá entram, nunca mais saem.
Vivem famílias inteiras dentro de carrinhas. Por isso é que se chamam utilitários. A família portuguesa costuma transportar-se de triciclo ou de camioneta, sempre ao relento, de costas para o condutor, sentados aos três e aos quatro de cada vez, a olhar para os automóveis que vêm atrás, entediados ao ponto da paralisia. Geralmente só a mulher e o filho mais novo, talvez por serem mais preciosos, envergam capacete. Quando se dá a aquisição da carrinha, mudam-se para o luxo de uma estrutura metálica coberta, onde seis indivíduos adultos se podem sentar confortavelmente à volta duma mesa e comer dois ou três cabazes de pataniscas. No Verão, em lugares como a Praia da Consolação, constituem-se gigantescas metrópoles de ford Transits, com avenidas estreitas entre veículos, restaurantes, casas de jogo e lojas. Os romenos, para meter medo às crianças e aos estrangeiros, têm os condes da Transilvânia. os portugueses têm os proletários da Transitlândia.
As carrinhas são a vingança das carripetas. As carripetas não dão mais que 35. As carrinhas andam sempre a 160. As carripetas fazem um cagarim estridente. As carrinhas são silenciosas, permitindo-lhes aproximar-se pela calada e pelas costas e congelarem-nos o sangue nas veias com a buzina. Pior que isso só as motoretas de fabrico nacional, chamadas Casalinho ou Fameli ou coisa que o valha, com que os jovens operários empreendem a luta de classes, oprimindo os tímpanos da burguesia. Como não são velozes, o moços compensam a falta de perigo com maneiras originais de condução, como andar aos ésses, haja ou não haja trânsito. Conduzem de pernas escancaradas, com as biqueiras dos sapatos rigidamente apontadas para o macadame, metendo mudanças como quem dá pontapés a gatos. Desto modo vão conseguindo atroplear-se.
Os homens da CEE nunca hão-de perceber o nosso parque automóvel. Há perguntas irrespondíveis. (O que é que quer dizer 'Galucho'? Está escrito na parte de trás de metade das camionetas nacionais.) Embora não haja propriamente automóveis portugueses, à parte aqueles triciclos (lá está outra vez) que se chamam Setubalenses ou Setubalinhos ou não sei quê, o nosso parque está mais nacionalizado do que muitos.

Miguel Esteves Cardoso, O Independente, 14 de Outubro de 1988

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quinta-feira, janeiro 22, 2009

22 de Janeiro - Do Baú das Crónicas

Foto in Globo Online

Um Exemplo de Patriotismo

Itaparica, 5 de agosto de 1983.
Meu Querido Zé,
Você ficará orgulhoso em saber que aquele tremendo carreto para cana de pesca que tive oportunidade de experimentar na sua presença, na redacção d''o bisnau' (com o Praça, invejosamente, fazendo o possível para quebrá-lo e declará-lo imprestável), já fez o seu batismo de fogo: ontem mesmo comemos do peixinho pescado aqui por este seu admirador e amigo.
Devo admitir que, inicialmente, o carreto ofereceu algumas dificuldades, mas estas terminaram por ser inteiramente superadas, depois de eu gastar apenas uns 800 metros de linhas de náilon, todas reduzidas a verdadeiros novelos inextricavelmente enrolados.
Pois é, pois enfim, eis-nos, Bento Português, Berenice Grávida e eu, cá em Itaparica. Não dispomos, é claro, do conforto e das muitas e luxuosas regalias de que desfruta o nosso Zé Cardoso Pires na Costa de Caparica - mas também ninguém aqui é escritor premiado de 'best-sellers', cada qual tem de se conformar com o que pode ter. Mas vamos passando e, se a tanto me ajudar carreto e arte, não faltarão peixadas à família. O resto não, mas o peixe eu garanto, sou um homem de carácter e um pescador irreprensível.
Seu patrício, que já fez dois anos e dois meses, quase três, é quem tem gostado mais. Foge de casa toda a vez que encontra o portão aberto. Na primeira vez, informou às pessoasque o encontraram vagabundando pela sua que seus pais haviam viajado para a Bahia, deixando-o sozinho em casa. Na segunda vez, indagado sobre sua identidade, respondeu, com a sua marcante pronúncia:
- Sou putoguês.
Veja que belo exemplo de patriotismo! Português, antes de tudo. E, como não temos, aqui em Itaparica, muitos portugueses de dois anos de idade perambulando pelas ruas da vila, ele foi prontamente recambiado à nossa casa. Na primeira vez, demonstrou habilidade para respostas prontas e fantasiosas. Na segunda, esse patriotismo arraigado e orgulhoso. Vou aconselhá-lo a manter a cidadania e, assim que completar a idade, candidatar-se à Assembleia Nacional, já que reúne tão espectaculares predicados para a carreira política, não acha você? Quanto a mim, meu interesse consiste em ser pai de um deputado português e assim, mesmo que por vias non rectas, conseguir acesso regular ao bar lá de São Bento. O mesmo Afonso Praça que agrediu meu carreto me revelou que lá o uísque custa uns 50 escudos a dose, ou coisa por aí. É bem verdade que pode ser da famosa marca secreta Old Sacavém, mas não vem ao caso. A 50 escudos a dose, eu (e o Praça) bebo qualquer coisa. Esse menino tem de fazer alguma coisa pelo pai, que está ficando velho e, ultimamente, tem-se submetido à humilhação, ditada pela precariedade das suas tradicionalmente combalidas finanças, de beber cachaça com limão em botecos de má reputação. Saudades de Lisboa, meu Zé, com o Cardoso Pires gastando a maior parte dos seus 700 e tal contos do prêmio em uísque para mim - é um grande colega, isso ninguém pode negar e não creio que nem mesmo o seu futuro Prêmio Nobel lhe suba à cabeça. O Prêmio Nobel, aliás, dá para um bocado de uísque e, consequentemente, já me declaro engajado na campanha pelo nosso Cardoso Pires, quero ser o primeiro a assinar a lista de adesão.
Quanto ao Brasil, confesso a você que tenho pensado mais no peixe do que na situação nacional. Como estamos sem televisor aqui, nem ao menos sei do que andam perpetrando nos últimos dias e - graças a Deus - estamos tão longe que, quando o mundo acabar, só vamos saber uns dez dias depois. E aí, como vão as coisas? Quantas vezes salvaram Portugal esta semana? E a crise? Tem chovido? E a miúda da livraria? Diga-lhe que perdoo tudo, passemos uma esponja no passado. Beijinhos às meninas do 'Se7e' (não exagere no cumprimento desta última missão, só quem pode exagerar com elas sou eu). No mais, lembranças a todos, um dia destes eu apareço outra vez por aí. E, desta vez, quando passarmos pela Póvoa, levo a cana e o carreto para lhe mostrar um par de coisas.
Do seu velho lobo do mar,
J.U.

João Ubaldo Ribeiro, Se7e, 31 de Agosto de 1983


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terça-feira, janeiro 06, 2009

6 de Janeiro - Do Baú das Crónicas

O meu cotidiano

Quando eu era menino sentia cócegas no corpo inteiro. O que está de acordo com a idéia da psicanálise de que, no início, o corpo inteiro é órgão sexual. Todo toque me excitava. As cócegas são uma ereção da pele. Aí a velhice chegou, e a libido encolheu. Hoje só sinto cócegas na sola dos pés.
Coisa muito próxima das cócegas são as coceiras. De todas, a mais deliciosa é a coceira do bicho, a "tunga penetrans". A "tunga penetrans" vive na proximidade dos chiqueiros e se aloja nos dedos do pé dos humanos formando uma bolha que deve ser extraída com uma agulha.
Dói um pouco pra tirar, mas os dividendos são enormes: a coceira que se segue se assemelha a um orgasmo. Uma jovem das antigas, virgem, preocupada com a noite de núpcias, perguntou à mãe: "Doí muito? A mãe, sábia, respondeu: "É como bicho de pé. Dói no início, mas depois você não quer parar de esfregar..."
O problema com a coceira é que ela dá tanto prazer que a gente coça até sangrar. Quem já teve frieira sabe o que estou dizendo. O que nos dá uma pista para entender os mecanismos do masoquismo: a dor misturada com o prazer.
Para mim o humor da política é igual à coceira da frieira: provoca prazer, mas faz sangrar. O riso do humor político nasce de um sofrimento. Nunca rimos tanto! Nunca sofremos tanto!
Essa imagem me veio quando comecei a pensar sobre minhas atividades de escritor. Um amigo me sugeriu tomar as notícias políticas como tema das minhas crônicas. Isso até pode acontecer, de vez em quando. Mas o fato é que as notícias políticas não me excitam, não fazem cócegas na imaginação. Só consigo escrever quando alguma coisa me produz cócegas na alma. Isso quer dizer que não é possível escrever um artigo por encomenda. De vez em quando atendo a pedidos. Mas artigo por encomenda sai sofrido, sem leveza.
Acontece que o cotidiano dos jornais não é o cotidiano da minha alma. O cotidiano dos jornais é feito de coisas importantes, universais, que aparecem nas manchetes: juros, corrupções, guerras, esportes. Mas o meu cotidiano é feito de coisas irrelevantes que, freqüentemente, só eu percebo. São as coisas sem importância que me fazem cócegas. Já escrevi sobre a pipoca, sobre as dentaduras, sobre o cuspe, sobre o tênis e o frescobol, sobre as cebolas. Como escrevi? Não sei. A imagem simplesmente me fez cócegas, e eu fui obrigado a escrever.
Como me aconteceu faz uns dias. Eu estava a ponto de entrar no Bem-Bom, restaurante onde cozinha uma Babette chamada dona Sônia, quando fui parado por dois jovens sorridentes e bem vestidos. Passaram-me um panfleto. Pensei que fossem mórmons à procura de mais um converso.
Li a primeira frase do panfleto. Fiquei horrorizado com o que li: "O senhor quer ler um livro em 20 minutos e entender tudo?" Faziam propaganda da leitura dinâmica, minha arquiinimiga. O palhaço que mora em mim entrou no picadeiro. "Ler um livro em 20 minutos? Isso é invenção do Demônio! Os senhores quereriam ouvir a Nona Sinfonia em 20 minutos? Quereriam ler "Grande Sertão: Veredas" em 20 minutos? Caminhando assim em breve teremos cursos de sexo dinâmico em que tudo se consuma em cinco segundos, à semelhança dos galos e das galinhas, economizando assim um tempo precioso para o trabalho! O prazer quer gozar devagar... É preciso ler bovinamente, ruminando... E agora os senhores me oferecem um método que vai me roubar dos meus prazeres?"
Foi maldade minha. Eles ficaram a me olhar, perplexos. Certamente acharam que eu era doido... Não sem uma certa dose de razão. Afinal de contas usei o meu precioso espaço para falar sobre o meu insignificante cotidiano que a ninguém interessa...

Rubem Alves, Folha de São Paulo, 21 de Fevereiro de 2006

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terça-feira, dezembro 16, 2008

16 de Dezembro - Do Baú das Crónicas

in http://teamsugar.com/group/897409/blog/1076655

A Aventura Interior

As pessoas perguntam-me com frequência porque é que deixei de usar cuecas. A razão é simples. Nos últimos tempos, ainda fiz um esforço para me habituar aos calções, apesar de ser difícil encontrá-los sem coelhinhos, foices e martelos, ou chupa-chupas. Mas são ridículos e pouco masculinos. Por isso é que ficam bem às raparigas. As raparigas acham uma certa graça aos calções, mas não é por serem sexy - é por inspirarem ternura. De facto, ao olhar para um homem adulto e peludo à hora do deitar e verificar que enverga calcinhas do My Little Pony, é impossível resistir a uma pontinha de comoção. Mas é a única pontinha possível.
Alguns calções chegam a ser desprovidos de abertura vertical, obrigando o utente a manobras de moçoila-do-campo, profundamente martirizantes para o frágil ego masculino. Nenhum homem gosta de arriar as calças só para fazer chichi. É como uma pessoa ter de se despir toda para tomar um comprimido.
Antes dos calções, havia umas coisas ainda mais ordinárias chamadas slips ou tangas. Também não eram masculinas - eram iguais às cuecas das raparigas, só que as cores eram mais nojentas, como roxo, cor-de-laranja ou cor-de-carne. Eram demasiado elásticas e constrangiam o estilo natural de um rapaz.
Os únicos homens que as usavam eram electricistas e veraneantes de rio: os Tarzans da Cruz Quebrada e de Algés. Durante os anos 70, os fabricantes conseguiram convencer os homens que estas cuequinhas de trapezista faziam arfar o peito feminino. Na verdade, as mulheres sempre se riram das cuecas dos homens tal como lhes têm sido apresentadas ao longo dos tempos, sobretudo se forem acompanhadas exclusivamente por sapatos pretos e peúgas. (Fiquem avisados, homens que gostam de usar calças largueironas: nunca, mas nunca tirem a camisa e as calças antes de descalçar meias e sapatos. A visão pode prejudicar de uma vez por todas a líbido da sua namorada ou esposa.)
A meio dos anos 80 houve um relâmpago de bom senso. Em Manhattan subiam enormes cartazes, fotografados por Bruce Weber, em que aparecia um homem normal com umas cuecas normais. Biliões de homens suspiraram de alívio. Obrigado, Calvin Klein. As cuecas normais são brancas, têm a fachada em ipsilon e cobrem adequadamente as nádegas sem apertá-las (como fazem os slips) ou deixá-las abandonadas ao relento (como fazem os calções).
O problema é que em Portugal não há cuecas da Calvin Klein. Há cuecas tradicionais, fabricadas em sítios sólidos como Braga e Guimarães, mas, em termos sociais, são investíveis. E porquê? Porque as cuecas portuguesas, devido a algum trauma religioso ou a 48 anos de fascismo ou lá o que é, são sempre de gola alta. Puxa-se um pouco pelo rebordo e as cuecas chegam-nos aos sovacos. Não pode ser.
É um flagelo nacional. Passo horas a olhar estupefacto para as linhas de roupa das famílias portuguesas. Quem é que pode possivelmente usar aquelas cuecas que parecem pára-quedas? É como as camionetas da palha. Porquê, santo Deus? Onde estão os seres humanos que obrigam o rabo e as pernas a viver naquelas gigantescas tendas de campismo que são as nossas cuecas a secar ao sol? Onde é que se fabricam aqueles tamanhos? Nalgum estaleiro?
Como país, temos as cuecas erradas. Merecíamos outras? Já não sei. O problema estende-se a toda a roupa interior. Mais uma vez, as linhas de roupa continuam a ser uma fonte importante. Como os caixotes de lixo (o que não aprendíamos se fôssemos a estudar os interiores!), as linhas de roupa mostram-nos o que se passa debaixo do colarinho. Não é uma imagem reconfortante.
Já se sabe que nós os portugueses, como raça, não arrumamos bem a roupa no cesto. Basta fitar as linhas de roupa dos nossos vizinhos, cheias de ceroulas a enfunar ao vento, estranhas cintas com apetrechos de pesca e soutiens da Securitas, reforçados à prova de bala. Chegamos à conclusão que temos, tal como Trás-os-Montes, um grave problema de interioridade.
A peça que mais me perplexa e que me vejo incapaz de explicar aos observadores estrangeiros que me procuram é a combinação. O que é? Para que serve? É para dormir? É só para aparecer em filmes italianos dos anos 50? Não, a combinação é uma coisa que não se compreende. Até o nome. Porque é que se chama assim? O que é que combina, ao certo? Se houve alguma antiga combinação, feita nos primórdios da nacionalidade, entre a Dona Urraca e a sua aia, de que as lusitanas haviam de usar um estranho vestido entre a roupa interior e o vestido, porque é que não fomos informados?
Ou será uma versão moderna do cinto de castidade, protegido por uma espécie de código de abertura, complexo sistema de presilhas e ganchetes como a combinação de um cofre? Em vão recorremos às páginas de lingerie da 'Elle', asseguradas por Eduardo Prado Coelho, mas verificamos que ele só combinou escrever sobre sapatos de salto alto e alcatifas. Se nem a crítica especializada nos vale, quem é que nos vai acudir?
Uma consulta preliminar aqui na Redacção não produziu grandes resultados. 'São para não ter frio', diz a Maria Eugénia. O Manuel Falcão diz apenas, com ar de quem sabe mais do que diz, que 'são óptimas'. Óptimas porquê? O que é que me estão a esconder? O que é que tenho andado a perder estes anos todos?
Nem falo nas outras coisas que espantadamente verifico nas nossas linhas. Nada direi sobre os estranhos saiotes de nylon, que se calhar se chamam meias-combinações, que as mendigas vestem por cima das calças de sarja para ficar com um ar ainda mais miserável. Nem tão pouco uma palavra sobre as camisolas interiores, com fantásticas propriedades térmicas, se calhar forradas a amianto ou recheadas com aparas de pêlo de marta, que os nossos chefes de família adquirem com o cartão Maconde e vestem debaixo da camisa ao jeito de fato de Super-Homem.
A questão das peúgas não a abordarei e sobretudo aquelas de pêlo turco, sempre azuis-turquesa ou cor-de-carne. Não farei qualquer referência às cuecas das senhoras, apesar da preocupação que me causam. Abafarei de bom grado a minha perplexidade face aos materiais usados na confecção das ditas, nomeadamente no que diz respeito à incompreensível popularidade da flanela. Registo apenas que me parece incompatível com a nossa pretensão de povo integrado na Europa. Num clima como o nosso, a insistência mórbida em cobrir os nossos atributos com quilómetros de flanela há-de sair-nos cara.
Deve haver muitos rapazes como eu, que reagem a este estado de coisas desistindo de usar cuecas, pijamas e peúgas. Não havendo dinheiro para comprar as cuecas do Sr. Klein, é melhor andar à mercê dos elementos, sofrendo as correntes de ar que se nos sopram pelas bainhas das calças acima e morrendo de vergonha nos gabinetes de prova quando o alfaiate espreita para perguntar se as calças sempre assentam bem, do que estar a colaborar no genocídio erótico da nossa população.
A roupa interior portuguesa foi concebida por pescadores da Nazaré e secretários do Santo Ofício em conluio com os mercadores de panos de Famalicão, e nós temos a obrigação de nos revoltarmos. Porque não formar um partido - o Partido Bem Trajado Estético e Nacional - com a sigla PBTEN? PBTEN também tem a vantagem de significar Por Baixo Estou Todo Nu. Abaixo as cuecas nacionais.

Miguel Esteves Cardoso, O Independente, 7 de Outubro de 1988

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terça-feira, dezembro 02, 2008

2 de Dezembro - Do Baú das Crónicas



A única dobragem aceitável é a do Cabo da boa Esperança. Desta arte se justifica que encarecidamente implore ao semanário SE7E a suspensão do inquérito ora em curso, o mui celebrado, mui polémico e mui descabido 'Dobragens na TV: Sim ou Não?'. Não é por mais nada: é que esta é uma daquelas questões para as quais não há alternativa, não há concílio a fazer, não há controvérsia, não há pachorra. A menos que a este inquérito sucedam outros de igual cariz: 'Apanhar com uma ogiva nuclear em cima: Sim ou Não?'; 'Exterminar à paulada os bebés-foca da calote ártica: 'Sim ou Não?'; 'Gostaria de ser seropositivo: Sim ou Não?'; 'Restabelecer o Santo Ofício: Sim ou Não?'; 'Acha que o Opus Pistorum deveria ser adoptado como livro de leitura do 1.º ano de escolaridade: sim ou Não?'; 'Considera que as sentenças de Salomão, mormente aquela que propõe a degola do nascituro em caso de maternidade dutosa, devem ser consagradas no Direito Penal: Sim ou Não?'; 'Atentados ao Sumo Pontífice: Sim ou Não?'; 'Vagas Terroristas: Sim ou Não?'; 'O Klaus Barbie era um bom rapaz. Se não concorda rebata a afirmação, mas com cuidadinho para a gente não se chatear'; 'Massacre de Inocentes: Está nessa?'; 'Bater em pessoas portando óculos: Oui ou Non? (está em francês, porquanto é um exclusivo do Nouvel Observateur)'; 'Esterilização indiscriminada da população sexualmente activa: Concorda ou talvez Não?'; 'Torturas Dantescas: é pró ou nem por isso?' 'Inferno ou Paraíso: qual a sua opção?'...
A dobragem (apoiado, Herman José, apoiado!) inspira náusea. Para a dobragem só há uma resposta: é Não, é Non, é Nein, é No, é Niet, é 'nem penses nisso senão nem sei que te faço.' A dobragem não é, como o pretendem as falanges nihilistas do inimigo, um serviço prestado aos nossos compatriotas analfabetos: é o método mais seguro e eficaz de propagação do analfabetismo. Se não fosse, porque não substituir também a imprensa escrita por uns arautos todos medievos, de gibão e cara ensebada, treinados para percorrer o País real declamando o notíciário do dia e incluindo pelo meio, para aligeirar o serviço, uns dixotes tirados ao Gil Vicente e ao Tolentino? Não seria isto também zelar pelos iletrados? E, já agora, porque não deixar as literaticces aos cónegos, aos monjes de Cister e às irmãs noviçase irmos todos em demanda do Graal prà Terra Santa? Melhor ainda, recusar a escrita? E os hábitos dos úmios, não eram bons hábitos? Regressemos às árvores, catemos parasitas, deixemos o pêlo alastrar e o cerebelo diminuir. Dobremos a espinha à civilização! Sejamos primitivos! Hgh! Umma-Gumma! Brhaa! (estes três últimos termos que grunhi resumem a minha opinião sobre a dobragem, mas precisam de ser dobrados...)
E digo mesmo mais: não está certo alegar que o recurso à dobragem daria sustento aos nossos flagelados actores. Um actor é um actor, costuma andar pelos proscénios, conhece de nome um tal Strindberg, põe tinta nas feições, é capaz de mimar a corcunda de Ricardo III ou a voz de falsete de um Gebo helénico, paga a quota para o Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, costuma ser exuberante no trato diário... se calhar já ninguém se lembra disso. Se calhar já a ninguém ocorre que um actor e um 'dobrador' (passe o termo) são profissões mais que distintas. A televisão só tem de empregar actores se fizer seriados ou Noites de Teatro. Façam-se Noites de Teatro. Ninguém deseja que os actores vivam à míngua. Mas também ninguém deve desejar que a RTP acarrete com as culpas da 'crise do teatro', da 'ausência do público', do colapso súbito e pentacentenário que vitimou o dramaturgo Shakespeare ou da excessiva demora do malandro do Godot... Se a RTP teimar nas dobragens, ainda põe a Irene Cruz a dobrar o Marlon Brando, O João Mota a dobrar a Marilyn, o Mário Viegas a dobrar a Pia Zadora, os miúdos que entraram na versão teatral do musical Annie a dobrar o Lawrence Olivier e a Greta Garbo, a Amélia Rey-Colaço a dobrar os miúdos na versão fílmica do Annie, sendo isto uma tragédia de proporções tais que se imporia instaurar governamentalmente o Estado de Calamidade, pedir à NATO para restaurar a ordem, mandar vir os restos do déspota Salazar para pôr cobro à desordem, sovar os responsáveis e deportá-los para o longínquo degredo. Podem crer que me custa a dizer isto, mas é verdade: a dobragem é um crime. Os prevaricadores devem ser punidos. Prevaricadores pró degredo! Prevaricadores, Go Home! (já que querem tanto dobrar, que dobrem isto).
Enfim, esta questão não tem assunto nenhum. Se ainda há alguém que concorde com a 'dobragem' que imagine vestida em português a deixa de Lauren Bacall a Humphrey Bogart em To Have and To Have Not ('Se precisares de mim, bufa... sabes bufar, não sabes?... Põe os beiços juntos e assopra'), se discordam de mim façam o favor de reconsiderar porque sou eu que tenho razão. Aliás, se dependesse da minha pessoa, acabava-se já aqui o inquérito, fazia-se disto a posição oficial deste semanário, a RTP, amedrontada com o quarto poder que o SE7E representa recuava e finava aqui a questão. A Bem da Nação.


João Miguel Silva, SE7E, idos de oitenta


Ilustre Blog Convidado da Semana:

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sexta-feira, novembro 14, 2008

14 de Novembro - Do Baú das Crónicas

A Aventura da Juventude
Quando é que deixam de me tratar como um jovem? Que idade é que é preciso atingir para perder esse labéu? Ainda recentemente a UNITA convidou-me para integrar um grupo de jovens que ia visitar a Jamba. Vi uma fotografia dos que foram. Tinham todos dezassete anos. Todos os dias me convidam para ser jovem. Porque é que não me deixam puxar a manta para cima dos joelhos e envelhecer?
Não tenho nada contra os jovens. Nem, pensando bem, nada a favor. Gostei de ser jovem. Mas trinta e três anos de juventude é demais. É como uma refeição que consiste apenas de melão com presunto. Acompanhado por um copo de leite com palhinha às riscas. Basta. Agora queria ser um homem. Será assim tão descabido? Porque é que não posso ser um senhor como os outros?
Como se faz muita confusão neste país com a juventude, seria bom que se estabelecesse, duma vez por todas, uma escala. É-se bebé até aos 2 anos. Depois, catraio até aos 5. Aos 6 já se é uma criança. Aos 9 anos as crianças transformam-se em miúdos. Aos 12-13 anos não se é nada. Volta-se a ser gente aos 14. E começa-se a adolescência, que dura até aos 18, a idade adulta. É-se jovem. Francamente. Mas até quando? No máximo dos máximos até aos 24 anos. 24 anos já é muito ano. Um lombo com 24 anos já alancou muito. E mesmo assim, convém lembrar que a decadência física e mental já começou por volta dos 20 anos. Dos 25 aos 35 é-se já senhor ou senhora, absolutamente não-jovem. Aos 35 anos, por ser aproximadamente metade do nosso tempo de vida, começa a meia-idade. A meia-idade é a velhice no estado infantil, mas é velhice. Com 45 anos já somos verdadeiramente velhos. E que mal é que isso tem?
Eu tenho 33 anos e gostaria que me respeitassem, se faz favor. Que não me tratassem por tu. Que me ajudassem a atravessar a rua quando preciso. Queria que os maîtres dos restaurantes deste país não olhassem para mim com o ar que olham sempre, que é 'Olha aquele puto orelhudo da televisão. Como é que ele veio aqui parar?' Queria um bocadinho de cerimónia. É pedir muito? Que idade é que é preciso ter para ter a atenção dos gerentes bancários? Porque é que ninguém me dá um cartão de crédito? Quero um cartão de crédito. Vou comprar uma bengala.
O direito à juventude já está mais que batido. Está consagrado na Constituição. Há um ministro da coisa. Mas ninguém fala do direito à meia-idade. Porque é que não hei-de reivindicar o direito de ser tratado pelo apelido por homens gordos de fato e gravata? Sonho com isso. Dão-me palmadas nas costas e dizem 'Ó Esteves Cardoso!'. Quero ficar à cabeça da mesa a comer cozido à portuguesa e a fazer festas rudes nas cabeças de muitas crianças à minha volta. Quero ser confrontado por pessoas adultas em reuniões à séria em que me digam 'Sabe, Esteves Cardoso - surgiu um problema'. Quero ser rouco. Queria ter barba. Quero ser tratado como a minha idade merece.
Não é isso que as pessoas fazem. O que as pessoas fazem é vir ter comigo cada vez que há um empreendimento que inclua a palavra 'jovem'. Querem que eu fale com os jovens sobre os problemas dos jovens. Mas porquê? Não quero ser o jovem avançadinho de serviço aos velhadas. Quero ser tratado como um crescido. Quero falar sobre problemas enormes, como a fome no mundo. Mas para isso ninguém me convida. Só para falar sobre a fome do mundo entre os jovens.
A palavra 'jovem' agonia-me. As pessoas importantes que vou conhecendo fazem sempre questão de sublinhar que 'os meus filhos gostam muito de ler as suas coisas', mas eles, adultos, não. O general Eanes, na única vez que o conheci, disse-me que lá em casa tinha um admirador, embora ele e a esposa não apreciassem. É o que toda a gente diz. Porque é que só os j***** me lêem? Pelas cartas que recebo, são cada vez mais j*****. Será o meu estilo que impede as pessoas com mais de 15 anos de me apreciar? Será o meu cérebro que se está a infantilizar? Daqui a uns anos só me restarão leitores de 7 a 8 anos? Quero ser lido por crescidos. Quero ser considerado. Quero que se discutam as minhas opiniões nos cafés. Sonho com a ideia de quatro senhores idosos sentados à mesa do Café Nicola a dizer 'Viu o editorial do Esteves Cardoso sobre as taxas de juro?' O que acontece é que vêm ter comigo miúdos de 11 anos a dizer 'Achei muita giro aquilo que escreveste sobre o problema das borbulhas'.
A semana passada recebemos uma carta do ministro das Finanças e, isso sim, fez-me sentir momentaneamente adulto mas a sensação durou pouco tempo porque percebi que nos estava a chamar garotos. Que é o mesmo que dizer j*****.
Quero ser tratado por doutor por outros doutores em almoços acerca de coisas graves. Isto nunca acontece. O que acontece é j***** chamarem-me 'Ó MEC!' e às vezes acrescentam 'Baixa as orelhas que ainda levantas voo'. E há outra coisa que me irrita. Quando entro num estabelecimento, num comboio ou em qualquer sítio público, se há um louco varrido, vem sentar-se ao pé de mim. Se há uma mulher daquelas com pêlos nas pernas, que gritam sempre as mesmas palavras, género 'Carago, carago,carago!' e têm os cabelos todos levantados, é uma lei matemática que me escolhe para desabafar. Se há um arruaceiro, é comigo sempre que se vem meter. Farto-me de andar à chapada. Ninguém me respeita. Tratam-me como um j****. Isto é, mal. Quando me tornei professor na universidade tinha 25 anos e pensei que a minha juventude tinha acabado e que eu ia ser respeitado. Mas os alunos não eram capazes de dizer 'professor' sem sorrir. durante cinco anos não vi uma cara séria. Metade dos alunos era mais velha do que eu e tratavam-me como uma criança, a outra metade tratava-me como um crítico de música pop. Tudo por eu ser j****. Não há outras pessoas que possam fazer de j*****? Porque é que hei-de ser sempre eu? Eu não sou j****. Tenho cabelos brancos. O tempo está a passar e eu já vou atrasado para gozar a minha meia-idade. O meu pesadelo é passar directamente de j**** para jarreta, sem período intermédio. Toda a gente tem direito a um período intermédio.
Em Portugal, é pior. É-se j**** durante mais tempo. Um homem com 44 anos que queira ser j**** tem apenas de se tornar agricultor para sê-lo, já que as bolsas para 'jovens agricultores' vão até aos 45 anos. 45 anos! Será que acresce o prazer de ficar sob a tutela do ministro da Juventude? 45 anos! Nunca mais tenho 45 anos. Vai-me matar ser jovem tanto tempo.
Miguel Esteves Cardoso, O Independente, 16 de Setembro de 1989

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terça-feira, novembro 04, 2008

4 de Novembro - Do Baú das Crónicas

(Nota da Gerência: Não sei porque a guardei. Devia estar a penar com uma paixoneta qualquer. Mas hoje serve para ilustrar um estilo muito cultivado nos anos 80/90: o tipo-MEC. Acontecia aos melhores.)
O Amor e a Paciência
Há um velho ditado português que já foi contaminado pelo bolor. Dizia ele, a quem o queria ouvir: quem espera sempre alcança. Mas não há nada mais falso. Afinal, quem espera nunca alcança. No amor, então, o elogio da paciência é uma ciência que vem de longe, e que tantos danos mentais tem causado nos apaixonados de hoje. Desde sempre os mais velhos instruíram os mais novos (o Amor não é nenhuma lei escrita, é uma lei natural que passa de ouvido para ouvido) que todas as formas de concretizar o desejo se resumiam a duas estratégias melosas: a teia de aranha e a canção do bandido. Hoje, sabendo-se que essas duas estratégias estão em saldo nas boutiques ciganas que passeiam por este país, elas são conhecidas como a tareia da aranha e a canção do lixado. Não percebem? Eu também não.
Sempre me explicaram, desde pequenino, que desde que Adão desejou petiscar Eva, para poupar a maçã para a sobremesa, que o amor é uma questão de paciência. Disseram-me então, como voz académica, que quando pedinchamos a paixão, passamos a vida a esmolar. Elucidaram-me também que não há dinheiro que compre a paixão e não há paixão que não se cumpra pagando em lágrimas. O problema é que não se combate a paixão com vacinas. E afinal o Amor é um caso curioso, quando renegamos tudo por isso. Imaginamos que nos amam (e aí até as melhores videntes se iludem com o que os seus olhos querem ver) e comportamo-nos como tontinhos em busca de um quilo de juízo (algo que não está à venda nos hipermercados). Suamos do coração e soamos falsos. A Mata Hari dos nossos olhos deixa cair um lenço no chão e quando, como cavalheiros do acaso e cavaleiros do ocaso, nos baixamos para o apanhar, ele dá-nos um pontapé no rabo, dizendo: Pensas que isto é Impulse da televisão? Não é, também me explicaram isso quando eu era pequenino. Mas eu nunca aprendi. E se calhar agora já é tarde para tudo isso.
Um psiquiatra brasileiro disse há alguns tempos que Sexo é um pouco de fricção e muito de fantasia. É capaz de ser, mas a parte suculenta da questão sempre foi, ao contrário do que muitos supõem, antes de os lençóis terem sido entreabertos. é essa fase da teia de aranha de que me falavam quando eu era pequenino e que agora El Debarge, com a sua voz melosa, explica em Real Love, uma canção que fala dos tortuosos caminhos do Amor. E da dor. Mas como eu tentava fazer desaguar para estas linhas as ideias que me incutiram, sempre insistiram que a paciência no amor é a nossa melhor arma para se conseguir o fim pretendido: a sobremesa que Adão se esqueceu de comer.
A estratégia da teia de aranha é a coisa mais simples do mundo - quado se encontra, numa qualquer rua, a paixão dos nossos próximos 15 minutos, devemos movimentar-nos em círculos concêntricos ao longo do tempo que for preciso, em volta da pessoa amada. O único problema é que às vezes ficamos tontos de amor e caímos no chão que nem uns perdidos. Nesse jogo a paciência é importantíssima. Se elas nos olha, nós olhamo-la fixamente, tentando perceber se ela não tem nenhum cisco no olho. E às vezes descobre-se que aquele olhar foi apenas uma questão de ramelas. O certo é que muitas vezes fica-se preso dessa loucura apaixonada que acaba por ser a ditadura dos nossos dias. E aí a teia de aranha acaba por se transformar na tareia da aranha.
Os mais experientes também me instruíram na canção do bandido, as frases certas que um ouvido incerto sempre gosta de ouvir, antes que algo de menos musical possa acontecer. A canção do bandido sempre foi o Bolero da imaginação, o corredor sem fundo da nossa imaginação, que nos ata, como o melhor índio, à estaca da idiotice. Afinal, num mundo de walkmans, já só cai na canção do bandido quem quer. E por isso com o correr das estações ela se tornou a canção do lixado (para não dizer outra coisa). Foi por tudo isto que inventaram o Dia dos Namorados, que é o dia em que todas as canções do bandido são aquecidas em fogo lento, como se fossem futuras pipocas, para adoçar a língua do nosso coração. O estômago tem sempre razões que a paixão se esforça por desconhecer.
Afinal, no amor, tudo acaba em postas de pescada, porque estas estratégias são tão modernas como os Brontossauros. Quem se move com elas acabará por morrer no deserto. Esmolando um amor que nunca lançará uma moeda para nos fazer sorrir o coração. E quem continuar a apostar nestas estratégias acabará por perceber que a paciência é, ao contrário do que se diz, o nosso pior defeito. Ficamos dependentes dela. E nunca mais ficamos independentes.
Fernando Sobral, Expresso, 23 de Maio de 1989

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terça-feira, outubro 21, 2008

21 de Outubro - Do Baú das Crónicas


A Aventura de Sofrer
Em Portugal sofre-se muito. Eu sofri muito. Tu já sofreste muito. Só Deus sabe o que ele já sofreu. De resto, sofre-se muito neste País. O próprio país sofre. Sofre só por sim com ponto final. E sofre coisas exteriores a si. Sofre de dúvidas. Sofre quedas. De escadotes. De cabelos. Sofre alterações. Sofre cataclismo. Sofre de sucessivas. Sofre de chofre.

Esta afirmação sofre de contra-argumentação. Dir-me-ão que também se sofre noutros países. Sofre-se mais. Sofre-se melhor. A fome, a miséria, o senador Dukakis. Só que sofrem duma maneira diferente. Para começar, não gostam. Não gostam? É verdade! Como é que pode ser?

Há muito sofrimento no mundo. Isso é certinho. E como é que nós podemos ajudar? Nós quem? Nós portugueses. Pois ensinando-os, pois levando mais longe a nossa palavra, pois estendendo até lá nossa mão, para que aprendam a gostar de sofrer. A amolar. A tirar as devidas lições. É a lição portuguesa ao Mundo: sofrer é um método de aprendizagem. Sofer é viver. Sofrer é saber. Como elas mordem. O processo é simples. Um: elas mordem. Dois: nós damos um salto no ar. Três: ficámos a saber que elas mordem. Quatro: já nos podemos considerar mordidos, mas sábios. A rapaziada do Sudão e da Etiópia podia tornar-se na rapaziada a Sul de Lisboa e Faro.

Bleaaargh! A coisa que mais detesto nos portugueses é o culto do sofrimento. As pessoas sofrem e dizem que sofrer 'faz calo'. É repulsivo. Calo, por amor de Deus - porque é que alguém há-de querer fazer uma coisa dessas? Passam pelas maiores amarguras e em vez de tentar esquecê-las dizem que 'criou carapaça', que isso ajuda a enfrentar melhor as agruras. Qual carapaça, qual carapuça de campino. Que vantagem tem uma pessoa ficar casca-grossa, insensível, género rinoceronte de olheiras e perna de pau, desconfiado de térmitas e pica-paus?

Sofrer é uma coisa horrorosa. É igual àquilo que se sente. Quando uma pessoa está na merda é que vê o que o sofrimento é: uma merda. O sofrimento dá cabo das pessoas. Vira-lhes os cantos dos olhos e da boca. Torna-os inacessíveis aos encantos do mundo, que já são poucos. O sofrimento vexa, humilha, amarrota, estupidifica. O sofrimento é uma coisa que não se deve enfrentar. Não é um touro. Não é a CEE. O sofrimento é uma coisa de que se deve absolutamente fugir. É melhor sair da sala, abandonar o lar, beber uma garrafa inteira de rum, tomar comprimidos e drogas, do que sofrer. é o sofrimento que mata as pessoas.

As pessoas ficam amarrotadas quando sofrem. Quando encaram o mal, ficam piores. Não há nada mais triste do que ouvir alguém dizer, quando se está a propor alguma felicidade - uma paixão, um negócio, uma confiança: 'Sabe é que eu já estou muito queimado, já levei muita pancada...' Os portugueses, ainda para mais, orgulham-se disso. Quanto mais queimado, quanto mais porrada tenha levado, mais veterano de guerra, mais Kaúlza de Arriaga, herói de 20 campanhas se sente.

Os portugueses estão drogados com o sofrimento. São junkies da melancolia. Injectam-se com as próprias misérias e, quando estas faltam, com as alheias. Acham que o sofrimento faz bem à alma. Quando há uma tragédia, um incêndio, um terramoto, eles gostam de sofrer. Acham que merecem. No fundo, sentem-se todos culpados e adoram a oportunidade de ser castigados. Para um português, o castigo redime. O sofrimento alivia. Concreta a ansiedade. Enche o vazio. Dá um foco à errância desfocada da alma. Eu sei lá.

Há um culto da desilusão que é perverso. Existe a ideia de que toda a felicidade é 'uma ilusão' e que só se descobre 'a verdade' quando se sofre o desaparecimento dela. 'Afinal', - diz o português lacrimejante - 'tudo aquilo era mentira...' Nós, portugueses - desculpem lá - temos todos coração de sopeira. Por alguma razão a nossa palavra preferida é quimera. Quando nos apaixonamos, a primeira ideia que nos vem à cabeça é que tudo aquilo é mentira. E esperamos estupidamente pelo esclarecimento. Tanto queremos ser esclarecidos, tanto prevemos a desilusão, tanto temos a certeza do desenlace, que acabamos por preparar a nossa desgraça.

Ó portugueses! Escutem a voz da minha mãe! Ela é inglesa como o mais inglês e ama Portugal mais do que qualquer português. Tem um lema urgente: 'Não é o fim do Mundo'. Há quatro anos ardeu a minha casa, ela chegou lá, aos escombros que restavam e disse: 'Bem! Não é o fim do Mundo.' E não era. Nunca é. Para ela, uma tragédia não é um castigo. Não é sequer uma naturalidade. É apenas um azar. Sofrer é aturar o mundo quando ele está mal disposto. Não é compreensão, inteligência, sabedoria. É doença.

Nunca é o fim do mundo. O sofrimento marca as pessoas. Torna-as sofridas. 'It's not the end of the world', como diz a minha mãe. Nunca é. E quando for, não há-de haver ninguém para dizê-lo. (Aposto que há-de sobreviver um português, só por pirraça, para dizer: 'Foi o fim do Mundo! Estamos bem tramados!')

Sou totalmente cobarde no que toca ao sofrimento. Não aguento. Dói demais. Quero que se lixe. Nem quero pensar nisso. Sou visto como um irresponsável, um inconsciente, um garoto, um menino mimado por causa disso. Dizem que me falta o elemento trágico. Ó minha alma adorada, não é que me falte - eu é que não gosto de falar disso.

O sofrimento é um nojo. Tudo o que dói faz mal. Quando alguém se chega ao pé de nós e diz 'Passei a noite inteira a chorar por tua causa', a sensação é repressora, totalitária, indecente. O sofrimento dos outros dói mais do que o nosso. Encosta-nos à parede e chama-nos nomes.

Sofrer é feio. Em público ainda é pior. O sofrimento é uma doença, uma constipação da alma, uma coisa para esquecer. Temos o dever de nos alegrarmos. A nós próprios e uns aos outros. Isso é que é um dever. A sinceridade é uma coisa gratuita. Alegrarmo-nos é uma missão heróica. Quanto mais fingidamente, melhor.

Sorrir é mandar os cantos dos lábios parar o curso das lágrimas descendentes. A boca é uma barragem. O coração é uma coisa simples. Sofrer é ficar ferido. As cicatrizes são todas feias. É melhor não ser nada - é melhor não ser feliz - do que sofrer. É isso o que se pensa quando se respeita verdadeiramente o sofrimento.




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terça-feira, outubro 07, 2008

Terça-feira, 7 de Outubro: Do Baú das Crónicas

Que Fazes por Aqui, ó Gato?

Começo eu a dar ao teclado e eis Mafalda a saltar para cima do monitor e a repimpar-se lá. Está agora sentada, circunspecta, com as orelhas enfiadas no quebra-luz do candeeiro e a cauda a tornear as patas da frente. Pisca os olhos, de vez em quando, como se estivesse a saborear as delícias de praias soalheiras, que ela, lá no seu íntimo, configura. Sou-lhe completamente indiferente, embora me arrogue dono e senhor dos aparelhómetros e possa cortar-lhe, a meu talante, os regalos caloríficos. Mafalda levanta agora uma pata, lambe-a, e não me liga absolutamente nenhuma, se bem que pareça olhar, vagamente, na minha direcção. Assim são os gatos. Estão-se nas tintas para a gente. Ainda não averiguei se os gatos dos outros têm a mesma mania de se instalar em cima de monitores e aparelhos de televisão. Esta é assim desde pequena. E bem posso falar-lhe, soprar-lhe, fazer-lhe gaifonas, que apenas condescende em fitar-me superiormente, com um profundíssimo desprezo.

Chama-se Mafalda e é uma siamesa de cinco anos que cresceu pouco. Talvez seja anã, se é que o nanismo dá nos felinos. O nome ocorreu quando ela veio cá para casa e havia leitura abundante das bandas desenhadas do Quino. Mafalda era faceira, metia-se em cestos, perseguia tudo o que mexesse, atirava arranhadelas certeiras quando contrariada, de maneira que a contestatária do Quino veio a calhar para nome que se houvesse de dar ao bicho.

Só por isso, porque eu sempre detestei o hábito de pôr nomes de gente a animais. Lembro-me de que uma vizinha tinha um spaniel chamado 'Sebastião', e que era desagradável ouvi-la admoestar 'ó Sebastião, ó Sebastião' quando o bicho se portava mal. Em tempos, um amigo meu teve uma gata, excessivamente vadia e sarrafeira, a que chamava 'Noronha' e que andava sempre caminho do veterinário, depois de furibundas e sanguinolentas guerreias que atroavam os telhados do bairro. No meu íntimo, acho que um gato se deve chamar honradamente 'Tareco', ou coisa assim, e que 'Piloto' não é mau nome para cão. Mas não sou eu quem decide estas coisas e há sempre pressões que me alteram os propósitos. Sabem como é. Também nunca consegui ter o automóvel encarnado dos meus sonhos consumistas. Já os tive verdes, azuis, amarelos, beringela, mas encarnados é que nunca havia nos stands quando os quis. São contingências da vida. Já estou conformado a que o próximo carro me saia cinzento ou preto. O gato seguinte não sei como se chamará, mas desconfio que hão-de confluir perversidades que me impeçam de lhe chamar 'Tareco.'

Noutro lado, provavelmente enrolada debaixo duma mesa, suspeito que com uns restos esquirolados em cima do tapete, sisuda medita Milu. É uma cadela pêlo-de-arame que tem a particularidade de só se exprimir a rosnar: a Milu quer ir à rua? Rosna. Quer ir para a varanda? Rosna. Discorda de qualquer indicação dos donos, ainda que branda e justíssima? Rosna. E mais rosna quando alguém se aproxima dois metros do prato dela, ou quando um inocente chama o elevador lá nos baixos do prédio. Consegue mesmo rosnar quando está a dormir - mecanismo que nunca esclareci - dissuadindo quem lhe queira perturbar o sossego. Acho que ela já percebeu que se faz entender bem assim e que os humanos se conformam a uma linguagem de rosnidos. Perspicaz, hem?

Eu é que ainda não me conformei com o facto humilhante e tenebroso de Milu ser a única cadela do mundo que morde nos donos. Nunca foi maltratada nem especialmente mimada. Não têm aqui cabido as teorias psicológicas dos traumas infantis. a Milu sempre foi posta no seu lugar com aquela sensata mistura de firmeza e condescendência que leva os demais canídeos a sentirem-se infinitamente reconhecidos para com os seus donos. Aliás, a outros respeitos, parece-me gozar de uma razoável saúde mental. Mas deu-lhe para ser assim. Ferra com convicção. Não com força bastante para britar ossos, mas com o poder de persuasão suficiente para que tenhamos de pensar duas vezes na forma de a agarrar para lhe dar um banho.

Este nome de Milu, ao contrário do que almas escandalizadas possam julgar, não foi maneira de fazer pirraça, ou homenagear, alguma criatura chamada Maria de Lurdes. Aconteceu que a cadela, quando veio cá para casa, era muito parecida com aquele cão filósofo do Tintin, que tem o mesmo nome, ainda que, por qualquer esquisitice própria das francofonias, Milou, lá, funcione no masculino. Mais uma vez me veio uma banda desenhada crismar os bichos domésticos. Mafalda e Milu, competentemente, dão-se como o cão e o gato, ou seja, bastante má, com vénia à consabida sabedoria popular. Milu domina e prepondera nos chãos até à altura de quarenta e cinco centímetros; daí para cima, quem faz a lei é a Mafalda, senhora absoluta de prateleiras, tampos de mesas, altos de sofás, topos de electrodomésticos, e de todos os píncaros e abismos caseiros, como poder de vida e de morte sobre os objectos a que habitualmente se chama bibelôs. Os acasos da vida fazem que haja zonas de fronteira que exigem mediação enérgica dos gatos e cães mais poderosos lá de casa, que somos nós: trata-se da tépida área abrangida pelos caloríferos, e da zona, ainda mais problemática, onde se encontram as comidas e os equipamentos necessários ao conforto animal. De vez em quando, devido a movimentos mal calculados, estala uma zaragata que parece do fim do mundo, mas que acaba sempre da mesma maneira: Milu desfaz-se em rosnidos, que na altura atingem quase os decibéis do roncar leonino, Mafalda liga uma espécie de sirene de bombeiro, entremeada de jactos de mangueira de alta pressão, enovelam-se os dois giratoriamente, e tudo acaba em bem. Mafalda dispara a fugir e Milu corre inutilmente, porque nunca a consegue alcançar. Aliás, mesmo se conseguisse, seria, creio eu, suficientemente sábia para se atrasar, calculando milimetricamente aquela distância táctica que lhe poupa os pêlos do focinho a uns contactos agudos. Está assim estabelecido, são leis lá deles e nós já nem precisamos de intervir. A previsibilidade é total. E como os animais não têm - poupados que foram pela natureza - prosápias de originalidade, a cena repte-se, dia após dia, sempre nos mesmo e exactos moldes, sem que daí venha grande mal ao mundo.

Curiosamente, tanto Mafalda como Milu, embora entendoras de algumas expressões como 'toma!', 'banho!', 'cs,cs!', 'bsh, bsh!', 'rua!', 'dá!', 'sape!' e de outros sinais de forte conteúdo semiológico (a abertura da porta do frigorífico, o rangido do abre-latas nas ditas, o sacudir dumas caixas de duras matérias alimentícias, o rancoroso olhar do dono quando nota que um sofá proibido está ainda quente...), recusam-se a compreender os apelos à concórdia mesmo quando minuciosamente explicados.

'Minhas caras, não há razões para zaragatas, há espaço para as duas junto do radiador, e, aliás, quem manda aqui somos nós' são declarações que as deixam estranhamente indiferentes, se não é que arreganham mais a dentuça da Milu e arqueiam exponencialmente o lombo eriçado da Mafalda. Já desistimos de fazer discursos aos animais. Limitamo-nos, com gestos mínimos e fleumáticos, a prevenir os estragos.

Mafalda mantém um comportamento conservador, atendendo àquilo que se espera dos gatos. Milu é a mais inovadora e tenta imitar a outra, contra a natureza. Se o salto da Mafalda para um colo é um 'zap' aveludado, tão subtil que quase não se nota, já o salto plagiado da Milu é um 'Catrapuz!' desajeitado que amolga as calças e comprime os estômagos. Em contrapartida, Milu parece distinguir bem a mão, que lhe faz festas, do colo que a sustém, coisa que eu não garanto que aconteça com Mafalda. Não raro, sinto um inconfessáfel despeito quando vejo Mafalda instalada nos joelhos dos meus amigos. A Milu nunca faz isso. Rosna-lhes e morde-lhes.

Em dado momento, de surpresa, apareceu-me em casa o Gastão. O Gastão é preto, com malhas brancas e tem uns ares afadistados, muito fiados na musculatura, se bem que não seja mau tipo. A minha filha mais velha trouxe-o dum centro comercial em que uma loja benemérita oferecia gatinhos. Deve ter achado que aquilo era um bom negócio. O bicho, muito orelhudo e trangalhadanças, passou a chamar-se Gastão, não por causa do amigo do Sandokan, nem do que era perfeito na cantiga do Zé Afonso, mas porque estavam a ter grande êxito cá em casa os álbuns do Gaston Lagaffe, proprietário dum gato igual. Quando cresceu e começou a ter uns ademanes suspeitos para com a Mafalda, aliás hostil, foi despachdo para outra casa familiar. Continua a ser um grande amigo da Milu (em contravenção do anexim), mas, cá por coisas, deixou de ter notícias da família.

Creio ter exposto com clareza as razões por que os meus bichos, a contrapelo, têm nome de gente. Antes que alguém pergunte. Ficam para amanhã as menções aos hamsters, tartarugas japonesas, pássaros, peixes, grilos e ouriços cacheiros que me passaram cá por casa.

Mário de Carvalho

Público, 5 de Março de 1993

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terça-feira, setembro 30, 2008

30 de Setembro - Do Baú das Crónicas

António João Pedro Miguel Nuno Manuel

Sempre que vou jantar a casa dos meus pais, saio de lá com a infância atravessada: Benfica mudou, a minha mãe deixou de ter 30 anos, posso fumar sem que ninguém me proíba, quando vem a travessa para a mesa nunca são fatias recheadas, não encontro os meus irmãos de pijama, com os cabelos loiros molhados do banho. A casa dos meus pais não se alterou muito: os quartos dos filhos transformaram-se em salas mas o cheiro é o mesmo. Há retratos de mortos: os meus avós, alguns tios, algumas tias, mortos que nunca me habituei ao facto de estarem mortos, que não me espantaria se entrassem de repente, pessoas que me fazem uma falta dos diabos e a quem não faço falta nenhuma porque nada agora lhes faz falta quanto mais eu. Sempre que vou jantar a casa dos meus pais saio de lá com a infância atravessada: não conheço as pessoas nem os prédios, o Paraíso levou sumiço, a Havaneza evaporou-se, não sei da Dona Maria José contrabandista, não sei do maluco dos passarinhos, há séculos que não vejo o meu pai fazer a barba, há séculos que a minha mãe, com a tesoura pequenina na mão, não me diz:
- Mostra lá os dedos
para me cortar as unhas. Sou eu que as corto sozinho com um corta-unhas, e como sou um azelha demoro eternidades a apanhar as aparas nos azulejos com o indicador molhado em cuspo. E corto-as em silêncio, sem berrar como um vitelo, e a minha mãe espantada
- Ainda nem comecei
a minha mãe que nos cortava as unhas, que nos dava injecções, que transformava as camisas do tio Eloy em camisas para nós e, como sou o mais velho, que andava sempre grávida, João Pedro Miguel Nuno Manuel. Saio de lá com a infância atravessada e fico no automóvel a ver o muro do jardim, o portão com um ananás de cada lado, as janelas trancadas, a copa escura da acácia porque é noite, a Travessa do Vintém das Escolas na mesma, excepto o Cabecinha que não tornei a ver, Não Sei Quê da Costa Cabecinha, num rés-do-chão de peitoril à altura do passeio, com quem me apanharam a pedir para o Santo António, e que tinha fotografias de mulheres nuas, rectângulos de papel negro com criaturas desfocadas que não se percebia peva e ele achava que sim
- Olha as mamas da gaja
e eu, cheio de vergonha e boa vontade, sem perceber mamas nenhumas, e o Cabecinha, a guardar aquelas preciosidades no bolso
- Seu artolas
e a partilhar os tesouros com os Ferra-O-Bico, que eram mais esclarecidos do que nós, se entendiam em glândulas e levavam miúdas ciganas para o mato atrás da Escola Normal, a fim de procederem com elas a operações misteriosas. A infância atravessada é pior que uma espinha: a gente engole bolas de pão e não passa. Talvez seja por isso que vou a Benfica uma vez por mês se tanto e que, quando lá vou, me sinto como um cão à procura de um osso que julga ter enterrado e afinal de contas não existia osso nenhum. Um osso que mesmo assim procuro até me arderem os olhos. Como me procuro nos álbuns de retratos. Como me procuro debaixo da minha cama
(está lá, a minha cama)
Como me procuro no quintal, na figueira do quintal, no sítio onde havia o poço, em que havia a capoeira, de modo que depois do jantar fico no automóvel a ver o muro, o portão com um ananás de cada lado, as janelas trancadas, a copa escura da acácia porque é noite. Se calhar é sempre noite quando a gente cresce. Fico no automóvel à espera que a minha mãe me chame, e sabendo que não me chama porque julga que me fui embora. Realmente fui-me embora. Para sempre.

António Lobo Antunes, Público, 21 de Maio de 1995

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domingo, setembro 21, 2008

Domingo 21/09 - Do Baú das Crónicas

O Símbolo da Pátria

Suponho existir algures na Alta Califórnia um monumento ao nosso compatriota João Rodrigues Cabrilho, descobridor daquela costa, cerca de 1540, ao serviço dos Reis de Espanha. Porque, há 50 anos, Ferreira de Castro encontrou na arrecadação de uma vivenda em São Francisco, à espera de pedestal, a estátua do grande Cabrilho. Embora os proprietários só falassem inglês, eram seguramente de ascendência lusíada, deduziu o escritor, porquanto, aos pés do navegador, jaziam dependurados três grandes bacalhaus secos.
Nas suas deambulações 'À Volta do Mundo', Ferreira de Castro constatou, fosse Índia, China ou Malásia, que em toda a parte onde havia portugueses havia bacalhau. Não tenho experiência que se lhe compare, mas suspeito ser realidade.
Há-de haver 20 anos, passei algumas semanas em casa de uns emigrantes, nos arredores de Paris. Gente simples, hospitaleira, generosa, com imenso prazer em receber. Ainda assim, mandam os costumes retribuir, oferecer qualquer lembrança aos donos da casa. Mas o quê? Um arranjo de flores? Uma peça de cristal? Um perfume? Queijo da serra, vinho do Porto? Da sondagem exploratória só saiu bacalhau. Apreciadíssimo. Melhor que oiro! Porque a reserva das 'vacanças' estava esgotada.
Um belo domingo, nos Champs-Elysées, aguardando o final da Volta à França, cruzámo-nos com um possidónio em parlapié franciú, à criancinha traquinas: 'Chicô, viène ici, mon p'tit.' Qual nada, Chiquito continuava destrambelhado. 'Francisco, viène ici, se nom apanhas uma chapada dans les ventas', perdeu o papá a tramontana. 'Está a ver', piscou o olho, cúmplice, o meu anfitrião, 'têm a mania de finaços, mas são bacalhaus como nós.' Aprendi. Ser bacalhau era, na gíria da emigração, sinónimo de nacionalidade portuguesa, mesmo camuflando as origens.
Estou em crer que esta identificação teleóstea é congénita. Há portugueses que gostam de sardinha, outros não. Petinga, carapau, jaquinzinhos, feijoada, cozido, arroz de lampreia, açorda de sável, fado, Benfica, tintol, muitos alinham, alguns (poucos) nem por isso. Mas de torcer o nariz ao bacalhau não há memória, nunca vi. É assim: conforme crescemos, adquirindo cultura, organizamos o nosso (conceito de) mundo. Categorizamos o tempo, o espaço, os objectos, os afectos. E, naturalmente, os alimentos. Estes subdividem-se em carne, peixe e bacalhau; o resto são condutos, acompanhamentos. Quer dizer: para nós, portugueses, o bacalhau salgado, seco, com espinhas, é uma categoria dietética própria, que não é carne nem peixe. É bacalhau. Ao contrário do peixe, não tem aquela mão-de-obra lixada, tirar peles, separar espinhas. E, em sinergismo com a carne, dá energia, puxa carroças.
A exploração dos bancos de bacalhau da Terra Nova constitui uma revolução alimentar na Europa, entre os séculos XVI e XVIII. Ingleses, franceses, flamengos, bascos, portugueses, catalães, iam todos àquele maná atlântico, fornecedor de proteínas, alegria dos pobres - e também dos ricos, particularmente nos jejuns da Quaresma, durante os quais estava interditado o simples comércio de carne, aves e ovos. Mas as guerras, as convulsões sociais, o progresso, os frigoríficos industriais e, nos últimos anos, as águas territoriais, liquidaram a moda europeia do bacalhau seco. Menos em Portugal. Não nos deixam pescar? Importamos da Noruega. Chega congelado, inteiro? Ora, faz-se de conta que é fresco: descongela-se, corta-se às postas, salga-se e seca-se. Ainda que, logo a seguir, nas nossas casas, se demolhe e volte ao congelador.
Somos os maiores consumidores mundiais per capita de bacalhau. Não sabemos viver sem ele. Quando, há dias, a Noruega negociava a sua integração na U.E., obviamente o nosso bravo governo - todo ele educado desde pequenino a óleo-de-fígado-de-bacalhau - exigiu contrapartidas: um aumento de quotas de pesca. Foi um valente finca-pé, com a vitória a sorrir-nos. 'Ganhámos!', garantiu, orgulhoso, o ministro Durão Barroso. 'Portugal duplicou a sua quota de pesca.' Porreiro. Só que o dobro de nada é nada. Zero multiplicado por dois dá zero. Mas receberemos fundos estruturais para reconverter a frota bacalhoeira. Em sucata.
Contudo, de uma coisa estou certo. Dê por onde der, continuaremos fiéis ao bacalhau. Vendo bem, mais do que o hino, bandeira, quinas, castelos, esfera armilar, o bacalhau é o símbolo da pátria. Direi mesmo, é a pátria. Por isso, recomendo ao homem da Feira Popular que, se se quiser recandidatar à Presidência da República, troque o queijo da serra por bacalhau. Rapidamente. Porque o General Eanes, ora sem partido, decerto fará do bacalhau sua flâmula, símbolo, imagem e programa eleitoral. Fiel amigo. Seco, esticado, salgado. Para todos os gostos, com mil e uma maneiras de cozinhar. Irresistível. Cá para mim, voto nele.

Ricardo França Jardim, Público, 17 de Abril de 1994

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