terça-feira, dezembro 23, 2008

23 de Dezembro - Da Arca dos Faits-Divers

Refeição camponesa na Idade Média

A Refeição na Idade Média

É cada vez mais frequente ouvir falar em cozinha medieval e mesmo em pratos medievais. Contrasenso. Os pratos só mais tarde entraram nas mesas dos portugueses.
A carne ou o peixe comiam-se sobre grandes metades de pão postas em frente de cada pessoa.
Entre os mais ricos, era costume distribuir esses pedaços de pão, depois das refeições, pelos mendigos ou pelos cães que rodeavam a mesa.
As colheres utilizavam-se raramente.
Garfos, ninguém conhecia. Daí que imperasse o hábito de lavar sempre as mãos antes de comer. 'Servidores traziam justas ou gomis, de prata ou de outro material consoante a abastança da mesa, e bacias grandes sobre as quais se colocavam as mãos. Em banquetes de especial requinte, a água simples podia ser substituída por água de rosas ou de outro perfume', salienta Oliveira Marques em A Sociedade Medieval Portuguesa.
Cada pessoa levava consigo a faca com que se servia. Após a refeição, era regra limpá-la à toalha.
Para beber, usavam-se os 'vasos' - copos maiores e mais pesados do que os actuais.
Tochas empunhadas por criados 'anunciavam' a chegada de cada uma das iguarias ou do vinho. Naquele tempo, era tão vulgar o receio dos envenenamentos que se utilizavam certos objectos, aos quais eram atribuídas virtudes mágicas, para detectar a pureza dos alimentos. 'Ao contacto com os alimentos impuros, este e outras talismãs mudariam de cor, manchar-se-iam ou começariam até a sangrar, acreditasvam as gentes...', esclarece ainda Oliveira Marques.
Durante a Idade Média, o jantar e a ceia eram as duas principais refeições. Nos fins do século XIV, jantava-se entre as 10 e as 11 horas da manhã e ceava-se pelas ou sete horas da tarde.
A carne, assada, cozida ou estufada, era a base da alimentação, por excelência. Consumia-se, principalmente, a caça e a criação, que, aliás, o vilão também utilizava para fazer parte dos pagamentos ao seu senhor.
Uma receita da época descreve uma das formas de cozinhar a galinha:
'Tomarão esta galinha e cozê-la-ão com salsa, coentros, hortelã e cebola; então deitar-lhe-ão sua tempera de vinagre e depois dela temperada e cozida tomarão este caldo e deitá-lo-ão a ferver em uma púcara e pô-la-ão a ferver em outra; e deitar-lhe-ão dentro, na mesma panela, meia-dúzia de ovos. E com este mesmo caldo de ovos tomarão dois pares de gemas de outros ovos e batê-los-ão e farão um caldo amarelo; e então tomarão a mesma galinha e pô-la-ão num prato com duas fatias de pão por baixo; e depois desta galinha posta nas fatias, pôr-lhe-ão os ovos que estão cozidos por de redor, e então deitar-lhe-ão o mesmo caldo amarelo dos outros ovos por riba e deitar-lhe-ão canela pisada por riba.'
Além da carne, também o peixe fazia parte da alimentação, sobretudo, das classes menos abastadas.
A pescada parece ter sido um dos peixes mais consumidos pelos portugueses durante a Idade Média. Mas as sardinhas, sáveis, salmonetes e lampreias faziam, igualmente, parte da refeição de muitas pessoas. Frequentemente, comia-se carne de baleia e de toninha, mariscos e crustáceos e, também, peixe seco, salgado e defumado.
As hortaliças e os legumes eram mais utilizados pelas pessoas das camadas sociais mais baixas.
A comida era temperada com vários tipos de matérias gordas, das quais se destacava o azeite. Na alimentação medieval portuguesa predominavam também as 'viandas de leite', ou seja, o queijo, a nata, a manteiga, os doces feitos à base de lacticínios e o próprio leite. Mas, segundo conta Oliveira Marques, D. Duarte não os aconselhava: "Que não se comessem natas nem outras 'viandas de leite' consideradas húmidas e por isso nocivas à saúde; ou, a comê-las, que fosse em pouca quantidade e sempre no fim das refeições, e que jamais se bebesse depois de as ter tomado."
Ovos e fruta comiam-se com abundância. Conheciam-se então quase todas as frutas que comemos hoje. Eram também consumidas secas, em conserva ou em doce.
Os bolos, cuja produção ainda estava pouco desenvolvida, fabricavam-se sobretudo à base de mel.
Mas era nos cereais e no vinho que assentava principalmente a alimentação do 'povo miúdo' na época medieval.
As searas de trigo abundavam mas, mesmo assim, a produção não era suficiente para o consumo. As crises cerealíferas repetiam-se e era então necessário importar trigo do estrangeiro. O preço do pão subia e muita gente morria de fome.
No campo, a alternativa para o pão era a castanha ou a bolota. Ou o milho, o centeio e mesmo a cevada, que constituíam a base da panificação.
As bebidas também não eram muito diversificadas. Chá, café e chocolate ainda não se conheciam.
Era com água e vinho que se matava a sede. Este não era apenas consumido no seu estado normal, mas também cozido. Temperado com água era a bebida ideal. 'Que não se bebesse, no entanto, mais de duas ou três vezes ao jantar e outro tanto à ceia (...). E que fossem duas partes sempre de água', aconselhava, então, D. Duarte.

(Texto retirado de não sei onde, não sei quando, e escrito não sei por quem. Não arrisco o autor, mas cheira-me a Revista de O Jornal, nos anos 80)



Ilustre Blog Convidado da Semana:
A Senhora Sócrates

Etiquetas:

terça-feira, dezembro 09, 2008

9 de Dezembro - Da Arca dos Faits-Divers



Vilarinho das Furnas: O Passado À Tona da Água
Vilarinho das Furnas era uma aldeia especial, com uma extraordinária vida comunitária. Mas esse facto não impediu a sua 'imolação' em nome do progresso. Nos anos 70, o Homem dominava a Natureza e construía no rio Homem mais uma barragem dos sistema Cávado-Rabagão. O enchimento da albufeira fez desaparecer a aldeia.

Agora a Natureza 'vingou-se'. Um Outono pouco chuvoso e o nível da albufeira desceu 31 metros abaixo do normal. Vilarinho das Furnas reapareceu. A aldeia mantém ainda intactas muitas das suas casas de granito, mas os seus hábitos de vida comunitária, esses, desapareceram naturalmente com a dispersão dos seus habitantes por várias localidades. O espírito, todavia, subsiste e é corporizado através de uma associação de ex-moradores que se propõe agora recuperar a fauna e a flora do monte comunitário que as águas pouparam e que ainda é seu.

'Parece uma romaria a quantidade de gente que tem vindo até cá nos fins-de-semana para ver as ruínas de Vilarinho.' A frase é de um comerciante de S. João do Campo, freguesia vizinha de Vilarinho, e retrata o interesse quase místico que é dedicado à antiga aldeia comunitária. Para esse comerciante, e para muitos outros, o reparecimento de Vilarinho das Furnas tem sido a tábua de salvação em termos económicos. O Outono frio e seco que tivemos não trouxe ainda a neve a esta zona integrada no Parque da Peneda-Gerês. E a neve é uma das atracções suplementares do Parque nesta época baixa do ano. Em contrapartida, a falta de chuva faz descer o nível da albufeira e reaparecer Vilarinho das Furnas. Por isso o negócio do sr. João Pereira da Silva, com a sua residencial e restaurante em S. João do Campo, não se ressentiu. Há muita gente que quer conhecer ou rever uma aldeia de facto especial. Até que as águas voltem a subir.

Da outra margem da albufeira dificilmente se vislumbra Vilarinho das Furnas. A lama tornou a aldeia uniforme, quase da cor das margens. É preciso avançar, atravessar a barragem e depois andar a pé uma boa meia hora para a observarmos de perto. Uma aldeia construída em granito há muitos, muitos anos, na margem do rio Homem. Quando foi submersa contava com 67 casas. Muitas delas estão intactas, apenas sem os tectos de colmo. As paredes teimam em manter-se de pé.

Nesta aldeia, agora vazia e visitada apenas pelos garranos selvagens do Gerês, germinou um regime comunitário sui generis, muito próximo da democracia representativa, que sobreviveu à ditadura do Estado Novo. Vilarinho das Furnas tinha legislação própria, baseada no Direito Consuetudinário, e elegia de seis em seis meses um conselho restrito de anciãos (Os Seis) presidido pelo zelador. Todos respeitavam escrupulosamente a lei e aqueles que a infringissem sujeitavam-se a penas pesadas, que podia ir até à expulsão. Ser expulso significava não ser considerado para a execução das tarefas colectivas, ser votado ao ostracismo (ninguém lhe falava) e não receber ajuda em caso de necessidade.

Rosa de Jesus tem 63 anos bem marcados na pele do rosto. Viveu em Vilarinho e agora arrasta-se em São João do Campo. Conta-nos histórias, já mal lembradas: a de um vizinho que depois de expulso da comunidade teve de se arrastar ensanguentado até casa, depois de uma queda, porque todos se recusaram a dar-lhe ajuda. Conta-nos também as tarefas colectivas, a mais importante das quais era apascentar os rebanhos no monte comunitário. Rosa de Jesus não foi agora rever a sua aldeia, tal como o não fizera em 1979, altura em que a aldeia ficou à vista devido a obras na barragem. 'Éramos como bandos de pitos, sempre a seguir a mãe galinha; agora estamos todos separados', explica-nos.

Mas Rosa de Jesus tem saudades da sua aldeia, dos seus costumes e, segundo ela, da sua vida farta. 'Ainda me lembro das maçãs das malhadas e das do S. Miguel' - recorda.

Mesmo assim, com estas saudades, Rosa de Jesus não vai rever a sua aldeia. E como ela há muitos. Estão espalhados por localidades próximas ou emigrados. Refizeram a sua vida com as indemnizações que receberam da Hidráulica e não querem recordar outros tempos, outra vida. Esta recusa aplica-se sobretudo aos mais velhos, porque os mais novos estão agora com projectos que sublimam o perdido espírito comunitário.

Em 8 de Dezembro, grande parte dos ex-moradores de Vilarinho reúnem-se para comemorar Santa Conceição. Fazem-no todos os anos na sede do museu, construído com o acervo de coisas da aldeia, na freguesia de S. João Do Campo. Mas ao longo do ano há outras reuniões promovidas pela associação - A Furna. Às vezes vão até ao monte comunitário, poupado pela subida das águas, e tratam de assegurar a qualidade da sua delimitação. É precisamente nesse monte que A Furna deposita agora os seus projectos. Presidida pelo professor universitário Manuel Antunes, apresentou na CEE um projecto de recuperação da fauna e flora da região, que prevê o repovoamento de espécies extintas e a reintrodução no monte da cabra do Gerês, do corço e do veado. Segundo informações que colhemos junto da Câmara de Terras do Bouro, o projecto foi muito bem aceite em Bruxelas e mereceu mesmo uma menção honrosa. Caso se concretize, ele corporizará o velho espírito comunitário das gentes de Vilarinho das Furnas.

Uma aldeia desaparecida, cuja memória não será manchada pela construção de grandes empreendimentos na região. De acordo com o presidente de Terras do Bouro, José Araújo, há agora um bom entendimento com a direcção do Parque da Peneda-Gerês e a certeza de que não serão autorizados quaisquer projectos que ofendam aquela área protegida. Foi o caso de um empresário algarvio que idealizava para as margens da albufeira a construção de um aldeamento. Quanto à hipótese de criação de um parque de campismo, a cargo de A Furna, na área do seu monte comunitário, José Araújo é menos taxativo, mas acrescenta que nem 'poluição visual' aceitaria. Tudo isto para que as paredes de Vilarinho das Furnas, de novo emersas, não se arrependam uma vez mais do seu sacrifício. Em nome do progresso.


José Cruz, O Jornal, 27 de Janeiro de 1989



Ilustre Blog Convidado da Semana

Etiquetas:

terça-feira, novembro 18, 2008

18 de Novembro - Da Arca dos Faits-Divers



De Mãos na Água


Riem-se dos anúncios da televisão em que o estrago de uma cafeteira entornada é apagado com um mergulho da toalha num banho de pós modernos. 'Vai-te embora, mentirosa!', dizem estas mulheres de braços molhados para quem é ponto assente a superioridade da ancestral ciência da água e do sabão. Mas já são poucas e carregadas de anos as lavadeiras de Lisboa. No grande lavadouro das Francezinhas, só metade dos tanques continuam a ser utilizados.

Há quem tenha passado vezes sem conta naquela esquina onde começa a Madragoa, no ponto em que a Rua das Francezinhas encontra a Travessa dos Pasteleiro, sem suspeitar que, por detrás das paredes ocres, sobrevive o maior lavadouro colectivo de Lisboa. São doze grandes tanques rectangulares, com bordas de lajes inclinadas, agrupados três a três. Ali, entre a roupa disposta em montes ou estendida em arames e varais, resiste ainda, na repetição de gestos que o tempo não alterou, um ofício incrustado na memória da cidade.

Mãos gretadas e mangas arregaçadas, aventais e plásticos presos com cordas e alfinetes, botas de borracha e línguas soltas, elas são as últimas e sabem-no. 'Isto tem passado de mães para filhas, mas agora as novas têm vergonha de cá vir.' Recordam tempos, ainda há quarenta e tal anos, em que os tanques não chegavam para as lavadeiras, era necessário esperar vez e deixar o lugar marcado quando iam almoçar. Hoje são só oito 'afectivas' as que lá vão todos os dias, chova ou faça sol, e quase nunca se juntam mais de 14 mulheres à volta dos tanques.

A Deolinda 'Preta', de 79 anos e desde os 12 a bater a roupa com os punhos ou a malha de pau, ou a Maria Jacques, continuadora, aos 75 anos, de uma arte que sua mãe, já no último decénio do século passado, praticava no mesmo local, lembram-se de muitas coisas e confundem outras. Sabem, por exemplo, que devem o lavadouro das Francezinhas a um impulso de caridade da rainha Dona Maria Pia, embora não consigam precisar a data da fundação, 1852. Recordam os tempos em que as lavadeiras saloias, de Caneças e Loures, chegavam em grupos à cidade, em carroças ou camionetas, de trouxas à cabeça, para dar a volta às freguesias certas. Mas é também de outra espécie o seu saber: 'Há roupas que estão mais sujas do avesso do que do direito.' Vaidades e aparências valem pouco para estas mulheres.

Têm um riso fácil que se mistura ao marulhar das águas, ao estalar das pancadas na roupa molhada, ao raspar incansável das escovas, uma música que aqui se sobrepõe ao rumor abafado da cidade, visível encosta abaixo, até ao rio. Mas, mesmo poucas, não desmerecem os pergaminhos de gerações inteiras, e por vezes o riso ou a conversa sobre a vida alheia dão lugar a ralhos e zangas em que vai tudo raso: 'Quando nos engalinhamos, dizemos tudo, é dos alhos às azeitonas.' Passada a tempestade, disciplinada a prevaricadora que queria lavar a roupa escura nos tanques da roupa branca ou pôr na água passadeiras e fatos-de-macaco sujos de óleo antes da uma da tarde, voltam a ser 'como uma família'.

E há as cantigas, marchas da Madragoa preferidas , ou outras antigas, em que as palavras já são roídas por esquecimento. Lambram-se de ter ouvido muitas como esta:

'Ó amor, que queres tu?
Eu quero roupa lavada
Vai à tua lavadeira
Que eu não sou tua criada'

Unanimidade faz a Beatriz Costa e a canção que imortalizou as lavadeiras no cinema: Ai bate, bate...' É uma das suas devoções.

Mas outras há, como as que se apresentam num nicho da parede, 'oratório ' em que cumprem particulares à Senhora de Fátima, de Santa Luzia, do Padre Cruz, do Santo antónio e do doutor Sousa Martins. Questões privadas de saúde, felicidade e fortuna, mas também rituais colectivos: o Santo António e a Senhora de Fátima foram adquiridos em conjunto, por alturas do 25 de Abril, 'para haver paz no mundo e sossego para todos'. E mais conta Vanilde Mendes, 'capataza' do lavadouro: 'Por causa da guerra do Golfo chorávamos aqui, no dia em que constou que a guerra tinha acabado viemos logo acender velas e chorar, ai minha nossa senhora, ainda bem que os nossos filhos não vão.'

Homens aqui, nem pensar. 'Isso é que era bom, isto é nosso!' Têm fraca ideia dos que tentam entrar, bêbados ou vadios. E não vão em modernices: lambram-se daquele turista espanhol que, acompanhando a mulher, tentou ajudar na lavagem; foi terminantemente proibido. 'Nesta água só mãos de senhoras', e está tudo dito.

Clientes têm-nas certas, onde vão buscar a encomenda da semana à segunda-feira, outras há que aparecem no lavadouro e ali apreçam o trabalho, como esta que chega, deixa uma trouxa de roupa pela qual pagará 500 escudos daí a oito dias e é troçada em colectivo mal se vai embora. As clientes são, para as lavadeiras, 'elas': 'Elas acham caro', 'para elas lavar faz mal às mãos, algumas calçam luvas.'

Aqui é tudo à mão, sabão escuro ou azul e branco, dependendo do gosto da obreira: desde o mais barato - um par de meias por cinco escudos, uma camisa vinte, calças entre trinta e quarenta, 'conforme elas vêm' - até aos lençóis, que podem chegar aos cem escudos sendo de casal e grandes, cobertores entre duzentos e trezentos, e a obra mais difícil que poucas máquinas fazem - carpetes, que requerem muita força de braço e o trabalho de duas mulheres, podem chegar ao conto e quinhentos.

'Já não se sabe lavar como dantes.' A opinião é definitiva e recolhe assentimento geral. 'Olhe para algumas janelas, que a roupa mete nojo. Parece o pano da casa.' Gostavam de passar a arte e por isso não se furtam a ensinar algumas 'cachopas' que aparecem, raramente, a pedir explicações.

A velha barrela para a roupa branca, que se fazia 'com a cinza dos padeiros e a porcaria das galinhas, há mais de cem anos', foi substituída por um banho com um pó. No resto, a ciência não mudou: roupa branca para um lado e de cor para outro, em alguidares a sabonária de um dia, com a velha potassa para a sujidade mais teimosa, um tanque para ensaboar e outro para passar por água. Nas lajes gastas, esfregam e batem a roupa ensaboada, depois há que 'passar como deve ser', primeiro com as peças bem abertas, dobrando com cuidado antes de cada novo mergulho, aprontando o tecido para ser 'bem torcidinho' antes de ir para o arame. Há segredos no pendurar as camisolas 'como deve ser, para não ficarem pingonas' e, finalmente, até nisto existe saber: 'Tudo tem o seu tempo a enxugar'.

Quem isto aprendeu não acredita em máquinas. 'Não há nada que chegue às nossas voltas', e a prova são as freguesas que tantas vezes lhes trazem peças acabadas de sair dos tambores metálicos. Ainda assim, desta luta está traçado o vencedor, as baixas não enganam. Mesmo se as lavadeiras de Lisboa ganharam uma batalha no final do século passado, quando, em 1884, para consumir o excesso de água canalizada do Alviela, a Companhia das Águas decidiu montar uma 'lavandaria-modelo' para 30 mil peças diárias, com o último grito em maquinaria e um técnico francês; foi tal a anarquia e a confusão que o público se desinteressou, o técnico desistiu de entender os portugueses, os prejuízos acumularam-se e a empresa acabou por ser vendida em 1903.

Provado está que não há como mão de lavadeira para afagar um colarinho. E por isso, mesmo queixando-se Deolinda de que 'quando me deito à noite não posso mexer este bracinho', no lavadouro das Francezinhas a opinião é unânime: 'Se isto fecha, a gente morre abismada.'

Frederico Carvalho, Expresso, 23 de Março de 1991

Etiquetas:

terça-feira, outubro 28, 2008

28 de Outubro - Da Arca dos Faits-Divers



Rushdie: A Religião das Palavras
Rushdie, o autor de Os Versículos Satânicos, é 'um morto que caminha', declarou aos jornalistas o embaixador do Irão no Vaticano, Salman Ghaffari. Seria difícil encontrar sítio mais apropriado para uma declaração tão friamente assassina. E Ghaffari prossegue com a incontinência verbal dos alucinados: 'Rushdie é o instrumento de um complot contra os Islão. Nesta contenda, o Ocidente enganou-se ao entrar em confronto com mil milhões de muçulmanos. O Leste ateu mostrou maior respeito.' Já tardavam os agradecimentos públicos de um governo teocrático pela compreensão demonstrada por outro que diviniza a razão do Estado. Ao oportunismo do Executivo soviético corresponde a fragilidade dos seus opositores internos (criam-se os inimigos a que se tem direito). O semanário 'Notícias de Moscovo' publicou uma petição, assinada entre outros por Andrei Sakharov e pelo conselheiro de Gorbachov para as questões espaciais Roald Sagdaiev, em que se apela para a 'clemência' de Khomeiny: 'Um acto de clemência corresponderia aos preceitos de Jesus e de Maomé.'
Uma verdadeira 'Internacional' dos fracos parece ter-se formado com a eclosão deste caso. O antigo presidente dos Estados Unidos da América, Jimmy Carter - o mais tímido dos governantes norte-americanos, que foi outrora enxovalhado como ninguém pelo Irão - considerou Os Versículos Satânicos 'um insulto directo a milhões de muçulmanos, cujas crenças sagradas foram violadas.' Não percebendo que o ayatollah é de facto apoiado pelos muçulmanos pobres - que nele vêem um vingador das afrontas que um mundo implacável lhe inflige - Carter preocupa-se com o embaraço que eles sentiriam perante a 'irresponsabilidade' de Khomeiny. Os escravos estão à porta da cidade, elegeram como chefe um Spartacus louco, e o velho imperador não sabe.
As tergiversações de um Ocidente aburguesado, cheio de má consciência, mais não fazem do que encorajar os novos inquisidores. Que o diga Geoffrey Howe, ministo dos Negócios Estrangeiros britânico: qualificar o romance de Rushdie de 'ofensivo' não evitou que o Irão, lançado num desafio crescente, cortasse relações com a Inglaterra. Mais vale ser temido do que amado, lembrava Maquiavel... É claro que expulsar trinta iranianos da Grã-Bretanha não mete medo a ninguém; eficaz seria interromper as importações de petróleo do Irão.
Uma espécie de sida moral parece estar já a tomar conta de algumas consciências: o prémio Nobel da Literatura de 1988, Neguib Mahfuz, depois de ter assinado um comunicado - com mais oitenta intelectuais árabes - em que era afirmado que 'nenhuma blasfémia prejudicava tanto o Islão como o apelo ao assassínio de um escritor', deu o dito por não dito e pede agora a proibição do livro, embora considere 'sagrada' a liberdade de expressão. Um prestidigitador. Não é o único, porém. A Organização da Conferência Islâmica - a decorrer entre os dias 15 e 16, na Arábia Saudita - tentou por todos os meios não se opor frontalmente ao Irão acerca do caso Rushdie, evitando no entanto apoiar a fatwa do imã. O problema foi remetido para a vaguíssima rubrica 'Estratégia Unificada de Informação Islâmica'. Provavelmente a Organização aconselhará os quarenta e cinco países que a compõem a deixar de importar livros da Penguin, a editora de Rushdie, mas o voto não será vinculativo.
'Merdifica-se' - exclama Yves Pascal, na revista francesa L'Express, a propósito de tanta hipocrisia.
Quem parece navegar com ligeireza no mar morto da confusão é o Grande Rabino da Grã-Bretanha, Emmanuel Jakobovits. Lançando fora a criança com a água do banho, propõe que se proíba quer a publicação de Os Versículos Satânicos, quer a difusão do apelo de Khomeiny ao assassínio. Este 'santo' homem, que gostaria talvez de ser Salomão, não passa afinal de Herodes. 'Eles falam do reino de Deus, mas dão dele uma ideia mesquinha e desprezível', comentava o autor latino Celso em Contra os Cristãos.
Norman Mailer propõe que os escritores façam aquilo que Isabelle Adjani muito corajosamente já fez: 'Iniciar todas as reuniões literárias com uma leitura das páginas críticas de Os Versículos Satânicos.' E Mailer insiste: Khomeiny ofereceu-nos a oportunidade de recuperar a nossa frágil religião, que consiste em crer nas palavras e estarmos dispostos a morrer por elas.' Esperemos que Neguib Mahfuz leve a sério o desafio de Mailer, e passe a respeitar mais o poder das palavras. É que, caso contrário, poderá começar a ser levado tão a sério como o italiano Vicenzo Strocchi, amador da obra de Dante. Strocchi enviou cartas assinados por pretensos Guardas da Revolução ao presidente da Câmara de Ravena e a um jornal local, ameaçando fazer explodir o túmulo de Dante porque este desrespeitava Maomé na Divina Comédia, remetendo-o para um local reservado aos traidores: 'Era uma brincadeira entre um pequeno grupo de especialistas.' Mahfuz é especialista em quê?
Em contrapartida, o escritor alemão federal Günther Grass não hesitou, como sempre: demitiu-se da Academia de Belas-Artes de Berlim Ocidental, porque os seus membros se recusaram a associar-se a uma leitura pública das obras de Rushdie. A humanidade justifica-se com gestos destes.
No Brasil, Os Versículos Satânicos serão publicados pela Companhia das Letras, editora de José Saramago e José Cardoso Pires, sendo a tradução utilizada a da Dom Quixote. Em Lisboa, o livro vai ser objecto de uma co-edição Dom Quixote / Círculo de Leitores, à semelhança do que tem acontecido com outras obras.
'A verdadeira essência, sem cor, sem forma, impalpável, não pode ser contemplada senão pelo guia da alma, a inteligência', concluía Celso.
Torcato Sepúlveda, Expresso, 18 de Março de 1989

Etiquetas:

terça-feira, outubro 14, 2008

Terça, 14 - Da Arca dos Faits-Divers

As Artes da Ria Formosa

Vai mudando com as marés, num volteio caprichoso que até hoje nenhuma obra humana conseguiu domesticar. De quando em vez, o mar enfurece, galga as dunas, os muros e as estradas, destrói as maisons de férias da ilha grande e abre novos caminhos. É a Ria Formosa, entalada na costa algarvia entre o aeroporto, o turismo de luxo e as cidades de Faro e Olhão. Termina para lá de Tavira, mesmo em frente do forte de Cacela.


Desde há séculos, atraiu os homens, que encontraram artes de pesca adaptadas às circunstâncias, inalteráveis de pais para filhos. 'Hoje, estamos à beira da fome.' As leis e os decretos proíbem a maior parte das artes de pesca da ria, e homens como o 'camarada Licas' fazem instrumentos de trabalho para figurarem em exposições, 'porque já ninguém faz e qualquer dia ninguém conhece.'

Ao Vítor deu-lhe a raiva e desatou a escrever o que sempre viveu desde criança. 'Os pescadores iam em 'companhas' de dois ou três homens, marcavam os 'mares', pelas beiçadas que o peixe dava no sedimento, ou então ouviam o peixe 'de salto'. Aí, deitavam a rede na arte do tapa esteiro.' Vendido o pescado, o dinheiro é repartido por todos. Mas cada pescador trata da sua rede, remenda-a e só se junta à companha na hora da próxima maré.

Uma arte difícil a exigir saberes feitos de longa experiência sobre os ventos, as correntes, a lua e o fundo lodoso da ria onde buscam alimento as espécies que se deseja apanhar.

Usam-se taminas e calões, e mais uma manga, que são nomes de sabores estranhos como se de outra língua se tratasse. Para 'rebrucar', com o chalrão, a arrojadeira ou o xalavar, lá se consegue fazer surgir o camarão, as enguias, a amêijoa. O robalo é bicho de se apanhar ao candeio, em noites de mar calmo e sem lua. Com o pangaio e a fisga, o pescador precisa de paciência e boa vista. Usa o azeite, 'para clarear o fundo' e uma pinguinha para não gelar de frio.

As avenidas que sulcam as águas das baías algarvias e fazem as delícias turísticas por serem 'very typical', são os petromax dos saveiros em busca dos polvos, de linguados, santolas e principalmente chocos. Sai-se de lá derreado, com os olhos a arder e os braços doridos, que esta é arte para um homem só quando muito dois, a revezarem entre a fisga e os remos.

Quem não gosta nada dos caranguejos morraceiros são os pescadores do tresmalho. Os bichos enleiam-se nas malhas e tiram eficiência à arte, chegando a destruí-la. Seja como for, entra sempre o trabalho de remendo e de limpeza, depois de uma noite inteira nos esteiros. Continua por enquanto a ser a arte mais popular, 'se calhar porque não foi proibida'. Para quando as forças vão faltando, a toneira é arte de pouco esforço. Num tubo de metal forrado de fio brilhante, fixam-se vários anzóis. Dá-se uma volta na chata pelos canais e sempre vem algum choco capaz de garantir a janta.

Mas a rainha das artes na Ria Formosa é a mariscagem. Dela vivem e se sustentam milhares de marítimos. As novas regras comerciais fizeram disparar os preços e aumentar os apetites. A Espanha é um consumidor voraz e os viveiros transformaram-se em campos de engorda, na mira de um preço mais alto. Em vinte anos, a amêijoa cristã subiu de 170 para 900 escudos o quilo. 'Já houve anos melhores, como em 1987, em que pagavam a 1500 a amêijoa grada.'

Mas depois veio a praga. A amêijoa morre com 'o parasita' e o mercado encolheu-se. Os viveiristas sabem que é preciso esperar dois anos para o bicho atingir um tamanho razoável e só aqueles que têm grandes concessões podem arriscar e comprar, em quantidade, ao mariscador que as apanha nos lavajos, 'ainda miúda e a ter de encorpar nos viveiros'. Os mariscadores continuam a capturá-la nos ariscos - bancos de areia que 'destapam' com a maré - com a faca de mariscar. Quem já sabe do ofício, marisca a olho, no sítio certo, com vento de favor e o sol na altura exacta. Já lá vão os tempos de cada um apanhar até 15 quilos. Agora, há grande festa se atingem o quilo certo, sem arredondar. As mãos são o principal instrumento do mariscador. Mas nos esteiros de grande profundidade usa-se um sarilho para alar a ganchorra e faz-se arrasto com a lancha. Menos sofisticado é o arrasto de mão, com a ganchorra a lavrar a terra e o xalavar a apanhar o que de lá sai.

Mas a ria é mãe generosa e um tanto eclética. Tanto cria berbigão como búzio, mesmo sabendo que o preço não é o mesmo para um esforço igual. Só as ostras não escaparam. Desapareceram porque são sensíveis a todo o tipo de poluição, urbana ou industrial. À laia de compensação, apareceu um 'camarão japonês', que resiste a tudo e cresce que é uma maravilha. O que ainda não se sabe é o que acontecerá às espécies de camarão nativas, em compita com esta. As 'portuguesas' nascem na 'terra da Mãe' (tal como as douradas, os linguados, os sargos e os salmonetes), que fica bem para o interior da ria, crescem nos lavajos - pequenas poças de água cálida - e depois espalham-se sobre os esteiros e regatos até alcançarem o mar.

Ao longo de muitos anos de múltiplos séculos, tudo se passou como sempre. O que a companha não compreende 'são os secretários de estado que não conhecem os peixes' e as leis superiormente emanadas. 'Não somos nós que fazemos mal à ria.' O 'camarada Licas' tem a cara cor de tijolo, queimada de sol e de mar. Acentua em largos gestos que 'estas artes sempre existiram. O que não havia eram os esgotos, as fábricas, o aeroporto, os pesticidas dos campos de golfe. E contra esses não conheço que haja leis.' O Vítor também diz que sim, no livro que escreveu para contar As Artes e Vida da Ria Formosa. Antes que desapareça.

Conceição Branco, Expresso, 27 de Abril de 1991

Ilustre Blog Convidado da Semana

Etiquetas: