sexta-feira, agosto 06, 2010

Citação do Dia

Essa mulher, a doce melancolia
dos seus ombros, canta.
O rumor
da sua voz entra-me pelo sono,
é muito antigo.
Traz o cheiro acidulado
da minha infância chapinhada ao sol.
O corpo leve quase de vidro.

Eugénio de Andrade

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quarta-feira, outubro 28, 2009

3 de Novembro - Citação do Dia

in Reditus

Os Amantes sem Dinheiro


Tinham o rosto aberto a quem passava
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade

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domingo, dezembro 07, 2008

7 de Dezembro - Citação do Dia

Que Diremos Ainda?
Vê como de súbito o céu se fecha
sobre dunas e barcos,
e cada um de nós se volta e fixa
os olhos um no outro,
e como deles devagar escorre
A última luz sobre as areias.
Que diremos ainda? Serão palavras,
isto que aflora aos lábios?
Palavras?, este rumor tão leve
que ouvimos o dia desprender-se?
Palavras, ou luz ainda?
Palavras, não. Quem as sabia?
Foi apenas lembrança doutra luz.
Nem luz seria, apenas outro olhar.


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O Café dos Loucos

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quarta-feira, novembro 19, 2008

19 de Novembro - Citação do Dia


Musica Mirabilis

Talvez a ternura
crepite no pulso,
talvez o vento
súbito se levante,
talvez a palavra
atinja o seu cume,
talvez um segredo
chegue ainda a tempo

- e desperte o lume.




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domingo, novembro 02, 2008

2 de Novembro - Citação do Dia

Arima

Uma gaivota - dizes.
Sim, uma gaivota
passa distante, e arde.
O teu rosto é azul,
e contudo está cheio do oiro da tarde.

Uma gaivota.
alma do mar e tua,
abandona-se à luz.
E na boca nem eu sei
se me nasce o coração,
ou é a lua.

Eugénio de Andrade

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sexta-feira, outubro 17, 2008

17 de Outubro - Citação do Dia

Canção Escrita nas Areias de Laga

No teu ombro respiro.
Belos são os navios,
altos, estreitos.
Feliz, o teu rosto no meu.
Que luz sobre o teu peito!

No teu ombro respiro.
Belas são as areias,
fulvas de verão.
Feliz, o meu rosto no teu.
Oh tão azul o mar na tua mão!

Eugénio de Andrade

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quarta-feira, outubro 08, 2008

8 de Outubro - Citação do Dia

Litania com o Teu Rosto

Ó noite, ó dia, ó música de guitarras
na rua ou no teu corpo,
primavera,
vara de nardos, estrela
de cinco pontas, morte pura,
ó barco onde as bandeiras
são todas de alegria,
água súbita, bosque próximo,
pão com sabor a sol,
ó leito onde corri
azul, azul, azul
à tua sombra,
amor,
ó lágrima,
espelho de terra,
mãe ardente,
melancolia,
secreta lua aberta,
alma, canção, ó noite, ó dia!

Eugénio de Andrade

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sábado, setembro 27, 2008

27 de Setembro - Citação do Dia

O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

E o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

Quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

É que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

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quinta-feira, setembro 18, 2008

18 de Setembro - Citação do Dia

Canção

O último pássaro
canta nos álamos.

A luz fatigada
tropeça nos ramos.

A terra é apenas
memória de lábios.

Ah, canta, canta,
rouxinol da água.

Eugénio de Andrade

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sábado, agosto 16, 2008

16 de Agosto - Citação do Dia

Espelho

Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.

Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nunca tive outra casa.

É de um rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.

De luz?
Que sabemos nós
dessas nuvens altas,
dessas agulhas
nuas
onde o silêncio se esconde?
Desses olhos redondos,
agudos de verão,
e tão azuis
como se fossem beijos?

Um corpo amei,
um corpo, um rio,
um pequeno tigre de inocência,
com lágrimas
esquecidas nos ombros,
gritos
adormecidos nas pernas,
com extensas,
arrefecidas
primaveras nas mãos.

Quem não amou
assim? Quem não amou?
Quem?
Quem não amou
está morto.

Piedade,
também eu sou mortal.
Piedade
por um lenço de linho
debruado de feroz melancolia,
por uma haste de espinheiro
atirada contra o muro,
por uma voz que tropeça
e não alcança os ramos.

De um corpo falei:
que rompam as águas.

Eugénio de Andrade

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domingo, julho 27, 2008

27 de Julho - Citação do Dia

Ostinato

Ao desejo,
à sombra aguda
do desejo,
eu me abandono.

Meu ramo de coral,
meu areal,
meu barco de oiro,
eu me abandono.

Minha pedra de orvalho,
meu amor,
meu punhal,
eu me abandono.

Minha lua queimada,
violada,
colhe-me, recolhe-me:
eu me abandono.

Eugénio de Andrade

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segunda-feira, julho 21, 2008

21 de Julho - Citação do Dia

Canção com Gaivotas de Bermeo

É março ou abril?
É um dia de sol
Perto do mar,
é um dia
em que todo o meu sangue
é orvalho e carícia

De que cor te vestiste?
De madrugada ou limão?
Que nuvens olhas, que colinas
altas,
enquanto afastas o rosto
das palavras que escrevo
de pé, exigindo
o teu amor?

É um dia de maio?
É um dia em que tropeço
no ar
à procura do azul dos teus olhos,
em que a tua voz,
dentro de mim, pergunta,
insiste:
¿Se te fué la melancolía,
amigo mío del alma?

É junho? É setembro?
É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.

Eugénio de Andrade

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domingo, julho 13, 2008

13 de Julho - Citação do Dia

VARIAÇÕES EM TOM MENOR

Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.

Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
Te queria para ser
canção breve, chama pura.

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

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sábado, julho 05, 2008

5 de Julho - Citação do Dia

CORAÇÃO RECENTE

Eras tu? Era o dia
acabado de nascer?

Que rosa abria? Rosa
ou ardor? Não seria

só desejo de ser
um travo de alegria?

Um fulgor? Um fluir?
Eras tu? Era o dia?

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

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quinta-feira, junho 26, 2008

26 de Junho - Citação do Dia

SERÃO PALAVRAS

Diremos prado bosque
primavera
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens.

Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração.

Diremos terra mar
ou madressilva,
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

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quarta-feira, junho 18, 2008

18 de Junho - Citação do Dia

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.

Eugénio de Andrade

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segunda-feira, junho 02, 2008

2 de Junho - Citação do Dia

MATINALMENTE

Que ronda matinal,
que luz tão jovem
treme e se demora
nos ramos altos,
e já distante
nem lembra que pousou?

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

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sexta-feira, maio 23, 2008

23 de Maio - Citação do Dia

Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.

Eugénio de Andrade

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sábado, maio 17, 2008

17 de Maio - Citação do Dia

Somos como árvores
só quando o desejo é morto.
Só então nos lembramos
que dezembro traz em si a primavera.
Só então, belos e despidos,
ficamos longamente à sua espera.

Eugénio de Andrade

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segunda-feira, março 10, 2008

10 de Março - Citação do Dia

Quando em silêncio passas entre as folhas,
uma ave renasce da sua morte
e agita as asas de repente;
tremem maduras todas as espigas
como se o próprio dia as inclinasse,
e gravemente comedidas,
param as fontes a beber-te a face.

Eugénio de Andrade

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